Ler o mapa é ler o mundo em linhas tortas,

onde há vozes caladas sob traços precisos.

Territórios se alargam, fronteiras são portas,

mas há mundos ausentes nos cantos omissos.


Cada traço encerra um gesto de domínio,

silencia aldeias, inventa nações.

Mas do fundo das vielas, há um outro raciocínio:

os contra-mapeamentos refazem visões.


O mapa não é neutro, é escolha traçada,

quem mapeia decide o que deve existir.

Toda escolha é vontade, é guerra velada,

um jeito de ver... e de fazer sumir.


A cartografia oficial é voz do poder que quer impor,

mas quando o povo fala, inicia o diálogo maior.

Nas mãos conscientes, renasce a força de criar

mapas que libertam, que ensinam a lutar, um modo insurgente de territorializar


Que rompamos os pactos da Geografia oficial,

feita pra excluir, apagar, dividir.

E tracemos no chão, com gesto essencial,

territórios possíveis pra gente existir.


A lua sobe lenta, pálida e antiga,
recortando o silêncio do céu escuro.
Carrega meu nome como um segredo
(luz que não aquece, mas permanece).

Nas noites frias, quando o mundo adormece,
ela me acompanha sem perguntas
(testemunha fiel da solidão).
Seu brilho é discreto, quase ferido,
mas insiste em existir.

Há nela uma beleza triste e constante,
como quem conhece a dor
(e não desvia o olhar).
Ilumina sem prometer salvação,
apenas fica.

Se tudo escurece, a lua ainda está lá.
E eu, como ela, sigo nas sombras
(feita de ausência e brilho contido),
aprendendo a viver no escuro.