20
de

Escrevo em uma tarde solitária, como todas as outras. Escrevo para conversar com meu próprio silêncio, para tentar dar nome ao caos que se espalha dentro de mim. Escrevo para espantar os fantasmas que insistem em sussurrar quando tudo ao meu redor se cala. É a única forma que tenho de me sentir viva, ainda que por instantes, antes de me afogar novamente. Preciso liberar essa carga invisível que pesa sobre meus ombros, preciso transformar meu desespero em palavras, porque, se não o fizer, temo enlouquecer.

Cada palavra rabiscada é um vestígio de algo que já fui ou de algo que nunca serei. Preciso registrar minhas angústias e felicidades, antes que se apaguem e se tornem apenas sombras sem forma. Meus amores, minhas ilusões, minhas tristezas e alegrias — tudo sempre tão narrado, como se o papel fosse o único confidente que nunca me abandona. Será que escrevo porque não tenho com quem conversar além das quatro paredes do meu quarto? Ou será que minha voz se tornou tão abafada que ninguém mais consegue ouvi-la?

Ando fraca. A cabeça perdida, sem um lugar seguro onde repousar. Busco paz para minha mente, mas quanto mais procuro, mais distante ela parece. O cansaço me pesa nos ossos, a exaustão me prende em um ciclo interminável. Talvez eu não seja uma boa companhia para ninguém — nem mesmo para mim. Se ao estar só me sinto entediada, angustiada, perdida, isso apenas prova o que sempre temi: sou minha melhor e minha pior companhia.

Percebo que estou perdendo o gosto pelas coisas, como se as cores do mundo desbotassem diante dos meus olhos. Fico presa em lembranças que não aquecem, apenas doem. Nostálgica, apática, e até mesmo misantrópica, evito o contato, recuo antes de qualquer aproximação. A batalha dentro de mim é incessante, e a cada dia me vejo mais frágil diante da guerra que travo com minha própria mente. Minhas noites se tornam cada vez mais longas, insuportáveis, enquanto a cidade dorme e eu permaneço desperta, debatendo-me entre medos e anseios que se multiplicam no escuro.

Perco-me dentro dos labirintos da minha própria mente, cercada de pensamentos que me assombram e me puxam para longe do que já fui. A cada dia, sinto que vou deixando para trás partes de mim, pedaços que nunca mais reencontrarei. Sou consumida constantemente pelos mesmos fantasmas que me acompanham sem descanso, do amanhecer ao anoitecer. E nesta cidade fria, onde caminho sozinha, continuo vagando sem rumo, sempre.

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" Eu respiro tentando encher os pulmões de vida, mas ainda é difícil deixar qualquer luz entrar... Ainda sinto por dentro toda dor dessa ferida, mas o pior é pensar que isso um dia vai cicatrizar... Eu queria manter cada corte em carne viva, a minha dor em eterna exposição. "

11
de

Em uma noite de pura dor e agonia,
Mais uma noite igual a tantas outras...
Rasgando minha pele, como quem rasga um papel,
Definhando meu corpo, como quem se despede da vida.

Essa estranha sensação de não mais existir,
De ser sugada, minuto após minuto,
Um vulto sem peso, sem forma,
Presa entre o vazio e o esquecimento.

Oh vida, o que fazes comigo?
Que jogo cruel é esse que me entregas?
Uma promessa de luz que nunca amanhece,
Uma estrada sem rumo, sem fim, sem volta.

O tempo me observa, impassível,
E eu, cada vez menor, cada vez mais fraca,
Sinto que já não há chão sob meus pés,
A queda se tornou minha única certeza.

Vida, maldita ironia!
Carrega-me logo, leva-me para onde quiseres...
Ou liberta-me dessa espera sem sentido.
Hoje, só por hoje, desisto de caminhar.

5
de



Hoje é mais um dia. Apenas mais um...
Um céu nublado, café amargo,
a fumaça do cigarro que dança no ar.
E não há nada. Nada...

Hoje, o dia é cortante,
fere a cada segundo que passa.
Mais um passo até o fim,
mais um fim que nunca chega.

Hoje, é mais uma luta—
um duelo contra minha própria mente.
Promessas quebradas, um dia sangrento,
perguntas sem resposta ecoando no tempo.

Hoje, sou só eu.
Só eu e o silêncio,
só eu e o peso
de estar sozinha comigo mesma.

E amanhã? Será que existe?
Ou será apenas um eco do hoje,
um reflexo opaco do ontem,
um ciclo que nunca se rompe?

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"Ando tão a flor da pele

minha vontade se confude com a vontade de não ser

Ando tão a flor da pele que minha pele tem o fogo do juízo final.

[...]

Às vezes me preservo noutras, suicido!"