Escrevo numa tarde suspensa, dessas que não começam nem terminam. Uma tarde solitária, como quase todas, em que o tempo parece hesitar diante de mim. Escrevo para conversar com o silêncio que me habita, para tentar nomear o caos que se espalha por dentro como um nevoeiro espesso. Escrevo porque os fantasmas se tornam mais audíveis quando o mundo se cala, e porque a palavra é o único gesto que ainda me mantém à tona. Escrever é o que me permite existir por breves instantes, antes que eu volte a submergir. Preciso escoar essa carga invisível que pesa sobre meus ombros, transmutar o desespero em linguagem, pois temo que, se não o fizer, enlouqueça em silêncio.
Cada palavra que deixo no papel é um vestígio: do que fui, do que deixei de ser ou do que jamais serei. Escrevo para salvar minhas angústias e minhas felicidades do apagamento, antes que se tornem apenas sombras informes na memória. Meus amores, minhas ilusões, minhas perdas e alegrias, tudo é narrado como quem confia a própria vida a um confidente fiel. O papel nunca me abandona. Pergunto-me se escrevo porque não há ninguém além das quatro paredes do meu quarto para me escutar, ou se minha voz se tornou tão abafada que já não alcança ninguém.
Sinto-me fraca. A mente errante, sem lugar seguro onde repousar. Procuro paz, mas quanto mais a busco, mais ela se afasta, como um horizonte que se desloca a cada passo. O cansaço se infiltra nos ossos, a exaustão me aprisiona num ciclo sem começo nem fim. Talvez eu não seja boa companhia (nem para os outros, nem para mim mesma). Se a solidão me entedia, me angustia e me desnorteia, isso apenas confirma o que sempre temi: sou, ao mesmo tempo, abrigo e ameaça, minha melhor e minha pior companhia.
Perco, aos poucos, o gosto pelas coisas. As cores do mundo parecem desbotar diante dos meus olhos, como se a vida fosse perdendo saturação. Fico presa a lembranças que não aquecem; apenas ferem. Nostálgica, apática, por vezes misantrópica, recuo antes de qualquer aproximação. Evito o toque, a palavra, o encontro. A batalha que travo dentro de mim é incessante, e a cada dia me sinto mais frágil diante dessa guerra silenciosa contra minha própria mente. As noites se alongam até se tornarem insuportáveis. Enquanto a cidade dorme, permaneço desperta, debatendo-me entre medos e anseios que se multiplicam na escuridão.
Perco-me nos labirintos do pensamento, cercada por ideias que me assombram e me afastam de quem um dia fui. Sinto que deixo pedaços de mim pelo caminho, fragmentos que talvez nunca mais reencontre. Sou acompanhada pelos mesmos fantasmas de sempre, incansáveis, persistentes, do amanhecer ao anoitecer. E nesta cidade fria, onde caminho só, continuo vagando sem direção, existindo em movimento, mesmo quando tudo em mim parece paralisado.
" Eu respiro tentando encher os pulmões de vida, mas ainda é difícil deixar qualquer luz entrar... Ainda sinto por dentro toda dor dessa ferida, mas o pior é pensar que isso um dia vai cicatrizar... Eu queria manter cada corte em carne viva, a minha dor em eterna exposição. "
5 comentários:
fiquei fascinada com seu texto... Suas palavras são fortes, sinceras e você faz muito bem em desabafar! parabéns pelo blog :)
...traigo
sangre
de
la
tarde
herida
en
la
mano
y
una
vela
de
mi
corazón
para
invitarte
y
darte
este
alma
que
viene
para
compartir
contigo
tu
bello
blog
con
un
ramillete
de
oro
y
claveles
dentro...
desde mis
HORAS ROTAS
Y AULA DE PAZ
TE SIGO TU BLOG
CON saludos de la luna al
reflejarse en el mar de la
poesía...
AFECTUOSAMENTE
LUANY
ESPERO SEAN DE VUESTRO AGRADO EL POST POETIZADO DE CHOCOLATE, EL NAZARENO- LOVE STORY,- Y- CABALLO, .
José
ramón...
Obrigada! :) Abraços!
Aqui meu cometário sobre tuas palavras, não porque és minha melhor amiga, mas porque tuas palavras tocam profundamente meu coração com sentimentos inexplicáveis. Lindas, fascinantes...
e sinceramente eu não tenho como comentar as coisas tão belas que escreves. Apenas sinto.
Hadassa
Acho que alguém que consegue expor seu íntimo assim, é uma pessoa muito especial. Parabéns pelo texto e pela corragem de desnudar a alma.
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