Escrever para ninguém é um ato estranho, quase um ritual silencioso de entrega. Eu me sento diante do computador como quem se senta diante de um espelho que não devolve reflexo, não por ausência de imagem, mas por excesso de profundidade. Não há superfície onde eu possa me reconhecer com nitidez. Há apenas um mergulho. Eu falo, confesso, sangro palavras e nada responde. Nenhum eco. Apenas o som seco das teclas marcando o tempo, como um relógio que não mede horas, mas vulnerabilidades.

Há algo de desconcertante nisso. Eu me exponho em carne viva sem a garantia de um olhar que sustente. Cada frase é um fragmento arrancado com precisão quase cirúrgica, cada metáfora um nervo exposto que pulsa sem anestesia. Ainda assim, o silêncio não se rompe. Ele se adensa, fica espesso, imóvel, como uma presença que não acolhe nem rejeita. Apenas existe. E, nesse cenário, escrever deixa de ser comunicação. Se aproxima de uma dissecação lenta, inevitável, íntima demais para ser confortável.

Às vezes sinto que tudo se perde no instante em que nasce. Minhas palavras parecem cair num abismo sem fundo, como se se dissolvessem antes de tocar qualquer superfície. Não há retorno, não há confirmação de que chegaram a algum lugar. Mesmo assim, algo permanece. Não é exatamente um eco, mas uma ressonância interna, como se o próprio ato de escrever já fosse suficiente para sustentar o que foi dito.

Eu percebo que o mundo da escrita pode ser sombrio nesse sentido. Não pela ausência de pessoas, mas pela natureza do que acontece dentro de mim enquanto escrevo. O som do teclado ecoa como passos em um corredor longo, onde cada porta aberta revela apenas mais de mim mesma. Eu coloco tudo no texto. Memórias que ainda ardem, feridas que nunca se fecharam por completo, sonhos que se deformaram com o tempo, ruínas que continuam de pé dentro de mim. E tudo isso é lançado ao mundo sem garantia de destino, sem rosto definido para receber.

Em alguns momentos, me pergunto se o que escrevo é triste demais. Se há um excesso de peso nas palavras, uma densidade que afasta em vez de aproximar. Mas, quando olho com mais cuidado, percebo que talvez essa não seja a pergunta certa. No fim das contas, não estamos todos atravessados por alguma forma de dor? Essa euforia coletiva pela busca incessante da felicidade me soa, muitas vezes, como um sonho juvenil, quase ingênuo, como se fosse possível habitar permanentemente um estado que, por natureza, é passageiro.

Felicidade, para mim, nunca se sustentou como permanência. O que existe são momentos. Instantes breves, às vezes quase imperceptíveis, que se acendem e se apagam com a mesma rapidez de uma brisa leve. E talvez seja justamente por isso que se busca tanto por ela, como se fosse possível capturá-la e mantê-la intacta. Eu já não acredito nisso. A duras penas, eu aprendi a reconhecer o movimento do pêndulo, essa oscilação inevitável entre o que pesa e o que alivia.

E, dentro desse movimento, eu faço o que posso. Eu me agarro aos momentos que aquecem, que aliviam, que suspendem por alguns segundos o peso do mundo. Eu os vivo com intensidade porque sei que passam. Sempre passam. Não há permanência, apenas travessia.

Por isso, o que escrevo não é tristeza. O que escrevo é realidade. É o que me atravessa, o que me constitui, o que insiste em existir mesmo quando eu tento silenciar. Minhas palavras não são um exagero do que sinto, são uma forma de dar contorno ao que já está aqui.

E talvez seja isso que sustenta tudo. Minhas palavras não nascem do encontro com o outro. Elas nascem da necessidade. Há coisas dentro de mim que não aceitam permanecer em silêncio. Elas pressionam, latejam, exigem passagem. Escrever deixa de ser escolha e se torna um movimento orgânico, quase involuntário, como respirar depois de tempo demais submersa.

Nesse ponto, o silêncio já não me parece um inimigo. Ele faz parte do processo. É o espaço onde o texto existe por si só, sem depender de resposta, sem precisar ser validado. O que eu escrevo carrega sua própria razão de existir. Não porque será lido, mas porque precisou ser dito.

Eu aceito, então, esse paradoxo. Eu me exponho completamente mesmo diante do vazio. Fico em carne viva diante da tela, mesmo quando nada se move do outro lado. E continuo. Não por esperar algo em troca, mas porque há algo em mim que insiste. Algo que transforma silêncio em palavra, mesmo quando ninguém está ouvindo.

 Não é mudança de opinião ao vento,
não é capricho, nem simples oscilação,
não é fraqueza diante do sofrimento,
nem drama inventado em cada situação.

Não é só rir e logo depois chorar,
não é “coisa da cabeça” a passar,
não é falta de Deus ou de querer,
nem algo que baste esforço pra conter.

É um mundo interno que rompe o eixo,
um corpo que grita sem ter som,
é mente em guerra, sem direito a descanso,
é caos que se instala, profundo e sem tom.

No alto, a euforia que cega e seduz,
promessas de grandeza, energia sem fim,
mas cobra depois um preço que reduz
toda a coragem que ainda há em mim.

No fundo, o abismo sem cor, sem saída,
o peso do nada esmagando o existir,
é a alma cansada, partida, ferida,
sem força sequer para continuar a fingir.

E há dias em que os dois vêm juntos,
um incêndio gelado dentro do peito,
pensamentos velozes, porém tão escuros,
um corpo exausto, um querer insatisfeito.

É rir com vontade de desaparecer,
é tremer com energia a transbordar,
é viver sem conseguir compreender
se é hora de parar ou de continuar.

Estado misto: um campo de batalha,
onde a mente corre e o corpo não vai,
onde a dor grita e a euforia atrapalha,
onde viver e desistir brigam demais.

E então vêm os comprimidos na mesa,
pequenos pactos diários com o existir,
cada dose carregando incerteza,
cada efeito colateral a insistir.

É o tremor, o sono, o corpo pesado,
o gosto amargo de persistir,
é aceitar o cuidado medicado
mesmo sem sempre conseguir sentir.

Mas dói também o olhar atravessado,
a palavra jogada sem pensar,
o rótulo frio, mal interpretado,
a dor de ter que sempre se explicar.

“É frescura”, dizem, sem conhecer,
“é só querer melhorar”, alguém fala,
e cada frase dessas faz doer
mais que a própria dor que não se cala.

O preconceito pesa mais que o sintoma,
silencia, isola, faz duvidar,
transforma a luta em mais um idioma
difícil demais de se pronunciar.

Ainda assim, sigo, mesmo cansada,
mesmo com dias que parecem não ter fim,
há uma força, às vezes apagada,
mas que insiste em existir em mim.

Porque viver também é resistência,
é levantar mesmo sem chão,
é encontrar, na própria existência,
um motivo pequeno, mas não em vão.

E no dia trinta de março eu declaro,
com dor, com verdade, sem romantizar:
ser bipolar é um caminho raro,
mas ainda assim… eu escolho ficar.


Entre risos e lágrimas eu caminho, enfim,
Celebro a conquista que floresce em mim,
Mas deixo pra trás um pedaço de história,
E no peito carrego saudade e memória.

Foram lutas, quedas, dias de incerteza,
Mas segui persistente, com força e firmeza,
Hoje colho os frutos de tanto insistir,
Mesmo com o coração relutando em partir.

Entre sombras densas e picos de euforia,
Depressão e mania teceram minha travessia,
Quase desisti, como na Filosofia um dia,
Mas insisti e na Pedagogia refiz minha poesia.

Aprendi muito além do que está no papel,
Nos caminhos do PIBIC, fui mais longe que o céu,
Na Monitoria e na Residência Pedagógica, fui me fazendo,
Professora em processo, aos poucos me tecendo.

Faltou a Extensão pra fechar o ciclo inteiro,
Mas não falta orgulho do caminho verdadeiro,
Cada passo vivido me fez ser quem sou,
E tudo que passei, de algum modo, ficou.

Agora, Pedagoga, palavra que emociona,
Mas junto com ela, a dúvida ressoa,
Qual estrada seguir nesse novo lugar?
Concurso, mestrado… ou em uma nova graduação recomeçar?

E assim sigo eu, entre o fim e o começo,
Com coragem no peito e um leve tropeço,
Pois se a despedida hoje insiste em doer,
É porque foi bonito demais viver.

O relógio não atrasa.
Nunca atrasa.
Ele bate seis dias seguidos
e guarda um
como quem concede um favor.

Tic.
Trabalho.
Tac.
Trabalho.
Tic.
Trabalho.

Seis voltas completas da semana
para um único respiro.

Dizem que todos possuem as mesmas 24 horas.
O mesmo sol nasce,
o mesmo ponteiro corre,
o mesmo calendário avança.

Mas quem vive na escala 6x1
aprende que as horas
não são todas suas.
São do patrão,
da meta,
do transporte lotado às cinco da manhã,
do corpo que chega em casa
já emprestado ao cansaço.

O domingo
único dia que não bate ponto
não é descanso inteiro.
É roupa acumulada,
é mercado,
é família pedindo presença
quando a energia já foi embora.

E então a pergunta insiste,
como alarme que não se cala:
Todos possuem as mesmas 24 horas?
Ou alguns recebem as horas cruas
enquanto outros escolhem
como temperá-las?

O relógio é justo na matemática.
Mas a vida não é equação.
Na escala 6x1
o tempo não é tempo
é turno.

É corpo convertido em produtividade.
É segunda que começa
antes mesmo de o domingo acabar.
E ainda assim,
no meio do cansaço,
há quem sonhe com outro ritmo
um em que o tempo não seja concessão,
mas direito.

Porque ter 24 horas
não é o mesmo
que poder vivê-las.