Não é mudança de opinião ao vento,
não é capricho, nem simples oscilação,
não é fraqueza diante do sofrimento,
nem drama inventado em cada situação.
Não é só rir e logo depois chorar,
não é “coisa da cabeça” a passar,
não é falta de Deus ou de querer,
nem algo que baste esforço pra conter.
É um mundo interno que rompe o eixo,
um corpo que grita sem ter som,
é mente em guerra, sem direito a descanso,
é caos que se instala, profundo e sem tom.
No alto, a euforia que cega e seduz,
promessas de grandeza, energia sem fim,
mas cobra depois um preço que reduz
toda a coragem que ainda há em mim.
No fundo, o abismo sem cor, sem saída,
o peso do nada esmagando o existir,
é a alma cansada, partida, ferida,
sem força sequer para continuar a fingir.
E há dias em que os dois vêm juntos,
um incêndio gelado dentro do peito,
pensamentos velozes, porém tão escuros,
um corpo exausto, um querer insatisfeito.
É rir com vontade de desaparecer,
é tremer com energia a transbordar,
é viver sem conseguir compreender
se é hora de parar ou de continuar.
Estado misto: um campo de batalha,
onde a mente corre e o corpo não vai,
onde a dor grita e a euforia atrapalha,
onde viver e desistir brigam demais.
E então vêm os comprimidos na mesa,
pequenos pactos diários com o existir,
cada dose carregando incerteza,
cada efeito colateral a insistir.
É o tremor, o sono, o corpo pesado,
o gosto amargo de persistir,
é aceitar o cuidado medicado
mesmo sem sempre conseguir sentir.
Mas dói também o olhar atravessado,
a palavra jogada sem pensar,
o rótulo frio, mal interpretado,
a dor de ter que sempre se explicar.
“É frescura”, dizem, sem conhecer,
“é só querer melhorar”, alguém fala,
e cada frase dessas faz doer
mais que a própria dor que não se cala.
O preconceito pesa mais que o sintoma,
silencia, isola, faz duvidar,
transforma a luta em mais um idioma
difícil demais de se pronunciar.
Ainda assim, sigo, mesmo cansada,
mesmo com dias que parecem não ter fim,
há uma força, às vezes apagada,
mas que insiste em existir em mim.
Porque viver também é resistência,
é levantar mesmo sem chão,
é encontrar, na própria existência,
um motivo pequeno, mas não em vão.
E no dia trinta de março eu declaro,
com dor, com verdade, sem romantizar:
ser bipolar é um caminho raro,
mas ainda assim… eu escolho ficar.
0 comentários:
Postar um comentário