Por que aquilo que me inaugura a alegria
é também a raiz da minha queda?
Ah, o amor
esse enigma que promete abrigo
e nos ensina o cativeiro.

O beijo que costura dois corpos
é o mesmo que ensaia a despedida.
Há nele algo de febre
uma doçura que adoece devagar
e aprende o corpo a sentir dor como hábito.

Como decifrar o que não quer ser dito?
Quando me desfaço em lágrimas,
és tu
origem do abismo
e, ainda assim,
bastava um sorriso teu
para que a tristeza recuasse, rendida.

Assustava-me depender do teu toque.
Não por fraqueza
mas por excesso de entrega.
Teu olhar me atravessava,
tuas palavras me desarmavam
e eu esquecia quem era.

Mas aprendi.

Hoje reconheço o veneno disfarçado de afeto.
Já não me curvo a promessas mansas
nem me deixo embalar por palavras bonitas
quando não carregam verdade.

O amor, agora, não me invade
não apaga minhas defesas
não atravessa meu nome.
Se fica, é inteiro.
Se parte, não me desfaz.

Ah, teu amor
já não me governa.
Caminha ao meu lado
ou sigo sozinha.