Cansada estou, copo cheio, alma tardia,
das madrugadas onde o bar me consumia,
falsa presença que fingia companhia,
eco vazio de uma falsa alegria.
Conversas tortas, promessas sem direção,
palavras gastas, sem raiz nem fundação,
não levam nunca a um futuro de chão,
nem a um peito em serena construção.
O bafo alcoólico perdeu sua sedução,
resta o odor morno da desistência em procissão,
cruzes herdadas em silenciosa repetição,
de outras vidas presas na mesma ilusão.
Não quero o fardo, tampouco teu atraso,
teus velhos vícios, teu afeto em falso caso,
teus restos mornos disfarçados de abraço,
nem teu presente aprisionado ao fracasso.
A vida pulsa além da breve distração,
há profundidade no silêncio em expansão,
há dança interna fora da exibição,
há afeto sóbrio, livre de distorção.
Ah, perfeito ser, foi nisso que acreditei,
nos olhos doces onde a farsa encontrei,
no riso exato que tão fácil aceitei,
armadilha fina que tarde desvendei.
Encanto breve, disfarce de afeição,
farsa vestida em delicada encenação,
meu coração não leu tua intenção,
nem percebeu o risco sob tua mão.
Ah, se um sussurro rompesse a escuridão,
se o tempo abrisse a trama da ilusão,
teria evitado a queda em sedução,
o abraço falso travestido de proteção.
Mas fui ainda movida pela esperança,
pisando leve onde ruía a confiança,
teu chão instável, tua doce dissonância,
minha fé breve em tua inconstância.
Agora busco quem sustente a amplidão,
quem reconheça a luz de um dia em expansão,
quem veja em mim mais que corpo e condição,
mas território vivo em plena construção.
Quero um toque que acolha sem ferir,
palavra firme que me ajude a construir,
olhar que saiba, sem pressa, me assistir,
ninho seguro onde eu possa existir.
Não serei eco de uma história repetida,
nem mais um corpo em migalha repartida,
recuso heranças de dor já conhecida,
reivindico inteira a minha própria vida.
Mereço mais, não restos de ocasião,
não teu copo raso ofertado em distração,
quero horizonte, travessia e direção,
não o teu vício, mas um cais em expansão.