Te amei num tempo em que amar doía,
quando tua boca mentia e meus olhos negavam,
me fiz pequena, sombra do que eu era,
na esperança vã de que um dia tu mudarias, 

Tuas palavras, veneno doce e raso,
me prendiam em laços que eu não via,
cada gesto, um passo para o abismo
que eu chamava de amor… e não sabia.

Fui silêncio onde eu devia ter sido grito,
fui espera em noites sem retorno,
te dei minha luz, o meu riso mais bonito,
e em troca, ganhei um mundo sem contorno.

Mas hoje, me ergo das cinzas
teus fantasmas já não me fazem morada,
cortei as cordas que me seguravam,
sou vento, sou mar e agora sou estrada.

Não sou metade, sou inteira e firme,

não me desfaço em pedaços teus,

o que me habita não se reprime,

nem se diminui nos olhos teus.

O fim não veio como um trovão raivoso,
mas como um suspiro de alívio e de razão.
O amor já tinha morrido, silencioso,
restava apenas minha libertação.

Agora caminho com passos inteiros,

já não me perco em desejos alheios,

se um dia “fui tua”, em laços ligeiros,

te digo: pertenço apenas a mim, sem rodeios.

Cansada estou, copo cheio, alma tardia,
das madrugadas onde o bar me consumia,
falsa presença que fingia companhia,
eco vazio de uma falsa alegria.

Conversas tortas, promessas sem direção,
palavras gastas, sem raiz nem fundação,
não levam nunca a um futuro de chão,
nem a um peito em serena construção.

O bafo alcoólico perdeu sua sedução,
resta o odor morno da desistência em procissão,
cruzes herdadas em silenciosa repetição,
de outras vidas presas na mesma ilusão.

Não quero o fardo, tampouco teu atraso,
teus velhos vícios, teu afeto em falso caso,
teus restos mornos disfarçados de abraço,
nem teu presente aprisionado ao fracasso.

A vida pulsa além da breve distração,
há profundidade no silêncio em expansão,
há dança interna fora da exibição,
há afeto sóbrio, livre de distorção.

Ah, perfeito ser, foi nisso que acreditei,
nos olhos doces onde a farsa encontrei,
no riso exato que tão fácil aceitei,
armadilha fina que tarde desvendei.

Encanto breve, disfarce de afeição,
farsa vestida em delicada encenação,
meu coração não leu tua intenção,
nem percebeu o risco sob tua mão.

Ah, se um sussurro rompesse a escuridão,
se o tempo abrisse a trama da ilusão,
teria evitado a queda em sedução,
o abraço falso travestido de proteção.

Mas fui ainda movida pela esperança,
pisando leve onde ruía a confiança,
teu chão instável, tua doce dissonância,
minha fé breve em tua inconstância.

Agora busco quem sustente a amplidão,
quem reconheça a luz de um dia em expansão,
quem veja em mim mais que corpo e condição,
mas território vivo em plena construção.

Quero um toque que acolha sem ferir,
palavra firme que me ajude a construir,
olhar que saiba, sem pressa, me assistir,
ninho seguro onde eu possa existir.

Não serei eco de uma história repetida,
nem mais um corpo em migalha repartida,
recuso heranças de dor já conhecida,
reivindico inteira a minha própria vida.

Mereço mais, não restos de ocasião,
não teu copo raso ofertado em distração,
quero horizonte, travessia e direção,
não o teu vício, mas um cais em expansão.

Quem poderia preencher este vazio no peito,
Chegar tão perto, sem me ferir com o tempo?
Invadir meus pensamentos de um jeito perfeito,
E acalmar em mim todo esse tormento?

Quem me faria esquecer meus próprios planos,
Só pra viver um romance feito canção?
A cada aurora, renovar novos enganos,
E ainda assim, aquecer meu coração?

Aprendi a silenciar minhas tempestades,
A ser abrigo mesmo sem direção.
Carrego em mim mil possibilidades,
Mas não imploro por outra mão.

Talvez eu não tenha nascido pra realidade,
Procuro um papel que nunca quis existir 
A não ser nos livros e na eternidade
Que os poetas insistem em construir.


"Eu não sei se sou o pugilista ou o saco de pancadas!" 

Fizemos um encontro a quatro,  
mas só havia dois corações ali 
o meu, descompassado e tonto,  
e o teu, que fingia não me sentir. 
 
Era por afronta? Por eu ter terminado contigo?
Eu fui tola, eu sei.
Mas não precisava ferir meu coração de tal jeito
aceitei o encontro, por que de confronto eu não fujo. 

Estavas com ela, e não parecia seguro,  
eu, fingindo amor num futuro  
que eu sabia não ser real.  
Como doeu quando os lábios que te encostavam
não eram os meus.

Sorri com os lábios, mas no peito  
o nó, o grito, o desrespeito  
de um amor que nunca partiu.  
Te olhei bem nos olhos, será que tu viu?  

Talvez foste lento, talvez covarde,  
ou talvez sou eu quem arde  
sozinha, em brasas de ilusão.  

Quis ir embora, fugir da aflição.  
Mas fiquei. E você não notou.  
Ou notou, e mesmo assim calou.  

Fingimos amizade, um teatro comum,  
mas era contigo que eu queria estar… 
contigo, e mais nenhum!

Por caminhos tortos, vaguei sem rumo,
Buscando um algo sem forma ou nome,
Colecionando silêncios no fundo,
Enquanto a alma, em suspiros, some.


Deixei pedaços de mim pelo chão,
em rostos, em vozes, em enganos.
Já não sei onde pus meu coração,
só sinto o cansaço dos anos.

Vivo entre vozes que nada me dizem,
Num teatro onde finjo a normalidade,
Convivo com vultos que me contradizem,
Seres vazios, sem luz, sem verdade.

Carrego marcas que não escolhi,
algumas doces, outras tão cruéis.
E mesmo as que eu nunca pedi
insistem em sangrar sob meus papéis.

Recordo os dias de olhos brilhantes,
Conversas profundas, risos de alma,
Onde o mundo era feito de instantes
Que aqueciam o peito com doce calma.

Vejo em mim rostos que não são meus,
fragmentos de gente que me feriu.
Tento arrancá-los dos olhos meus,
mas o passado nunca partiu.

Felicidade... essa ladra gentil,
Visita-me às vezes, de modo sutil.
Mas quando me toca, já vai embora,
E eu, sem nada pra dar, só imploro

Convivo entre corpos que não se tocam,
mentes vazias, presas no próprio eco.
Sorriso forçado, palavras que socam,
em um mundo cada vez mais seco.

Sinto nojo do palco onde atuo,
entre lamentos, mentiras e vaidade.
A solidão tem gosto de fel cru,
mas me soa mais doce que a falsidade.

Lembro dos tempos de riso inteiro,
das vozes que pensavam profundo.
Agora me cerco de um travesseiro,
fugindo do absurdo do mundo.

A felicidade me visita escondida,
leva tudo e nunca me dá.
Faz da esperança a sua saída
e me deixa mendiga de amar.