Sem criatividade para escrever,
Sem vontade de ao menos pensar.
Sem saco pra resumir tudo em palavras,
Apenas o desejo de que elas possam aliviar...
Não quero encontrar rima no que digo,
Nem me prender à formalidade.
Métrica, regras, toda essa estrutura...
Só quero descrever o que vejo e sinto,
Sem a ilusão da perfeição ou da verdade.
Na realidade, nem sei o que quero desabafar,
Talvez minha repulsa por essa nova geração.
Tento explicar o que vejo ao lançar o olhar,
Mas tudo me escapa, como uma frustração.
Sinto-me estrangeira, sem lugar ou identidade,
Vejo a fome estampada no olhar de uma criança,
E jovens tão mais jovens que eu,
Trancados em bolhas de falsa esperança.
Vejo a ânsia de ser diferente
E o vazio de quem se julga são.
Vejo aqueles que se dizem cultos e sábios,
Mas são apenas mais gado no meio do rebanho.
Essa juventude me cansa, a futilidade me desgasta,
O materialismo me assusta, a vulgaridade me corrói.
Cansei também dessa falta de pensar,
E de argumentos vazios que nada constrói.
Me torno apática a cada dia,
Sinto nojo do mundo ao meu redor.
Sexo, amor, amizade — tudo banal,
Como se nada mais tivesse valor.
E o que sobra depois da náusea?
Talvez um eco, um grito mudo no escuro,
Ou a certeza de que ser estrangeira
É o preço de quem enxerga além do muro.
Se o mundo é esse que se molda à cegueira,
Que sejamos então as vozes errantes.
Melhor caminhar contra a maré
Do que afogar-se entre os ignorantes.