Dizem que é ingenuidade
acreditar em amor
num tempo em que tudo se consome rápido
e nada permanece.
Mas eu insisto.
Não por romantismo,
e sim por sobrevivência.
Acredito no amor que não pede aplausos,
que não negocia afeto,
que não se oferece como vitrine.
No amor que chega sem prometer salvação
e, ainda assim, fica.
O passado tentou me endurecer.
Fez da dor uma escola severa,
da ausência um idioma cotidiano.
Aprendi a desconfiar,
aprendi a sangrar em silêncio,
aprendi a não esperar.
E mesmo assim
algo em mim se recusa a morrer.
Não é pureza.
É teimosia.
É uma espécie de fé sem igreja,
um resto de luz que sobrevive
entre ruínas.
O amor não é delicado.
Ele rasga.
Desorganiza o corpo,
embaralha a razão,
expõe as fragilidades que fingimos controlar.
Amar é um ato político.
Um gesto de insubordinação
num mundo que lucra com a indiferença.
O amor não cura tudo,
mas sustenta.
Não resolve,
mas impede o colapso total.
Se existe alguma revolução possível,
ela começa no risco de sentir
quando seria mais fácil se fechar.
E por isso eu ainda acredito.
Não apesar de tudo,
mas contra tudo.