Dizem que é só ingenuidade,
acreditar ainda no amor,
num mundo feito de brevidade,
onde tudo se perde sem pudor.

Mas sigo firme, ainda insisto,
não por sonho ou ilusão,
é no afeto que ainda existo,
é questão de respiração.

Acredito no amor contido,
que não se vende em exposição,
não se oferece como ruído,
nem se molda à aprovação.

No amor simples, sem promessa,
que não vem como redenção,
mas que fica, mesmo sem pressa,
sustentando a direção.

O passado tentou ser muro,
fez da dor meu professor,
da ausência, hábito escuro,
do silêncio, um cobertor.

Aprendi a desconfiar,
a calar o que doía,
a sangrar sem avisar,
a esperar sem garantia.

E ainda assim, algo resiste,
não se curva ao que perdeu,
há um resto que ainda insiste,
em viver no que morreu.

Não é pureza, nem inocência,
não é sonho nem ilusão,
é uma fé sem dependência,
que resiste à negação.

É centelha entre ruínas,
luz teimosa a permanecer,
mesmo em terras tão feridas,
algo ainda quer nascer.

O amor não é leve encanto,
não é gesto sem tensão,
ele invade, quebra o pranto,
desorganiza a razão.

Expõe tudo que escondemos,
rasga o medo de existir,
tudo aquilo que tememos,
vem à tona ao sentir.

Amar é gesto insurgente,
ato vivo de oposição,
num mundo frio e indiferente,
que negocia o coração.

O amor não salva tudo,
nem resolve a direção,
mas sustenta, mesmo mudo,
quando falta o chão.

Se há ainda alguma mudança,
se há ruptura ou criação,
nasce no risco da esperança,
de sentir na contramão.

E é por isso que acredito,
não por falta de razão,
mas por tudo que resisto,
mesmo contra a negação.

1 comments:

O amor é a base de tudo!

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