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de

Os dias deslizam entre caixas marcadas,
nomes difíceis, doses contadas.
Engulo promessas de alguma constância,
mas sinto na boca o gosto da ânsia.

Manhãs pesadas, engulo o silêncio,
Bupropiona e Lítio me prendem no tempo.
À noite, Sertralina apaga memórias,
Rivotril me apaga—sou sombra, sou vento.

Subo no trilho da euforia sem freio,
o mundo é meu—até ser devaneio.
Despenco no abismo sem ter quem segure,
o corpo implora, mas a alma não jura.

De olhos abertos, mas sempre fechados,
procuro um sentido entre sonhos rasgados.
A vida se arrasta num ciclo sem cor,
cansada demais pra sentir qualquer dor.

E se um dia eu jogar tudo ao chão?
Se rasgar receitas, negar prescrição?
Talvez me liberte, talvez me desfaça—
mas que diferença faz, se já sou só fumaça?

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