Para as mulheres que aprenderam cedo
a recolher a própria voz calada,
que transformaram o amor em medo
e fizeram do silêncio uma morada.

Disseram-lhes: "ser mulher é esperar",
ceder aos outros, suportar a dor;
que compreender é sempre se calar
e renunciar aos próprios sonhos por amor.

Mas nenhuma existência foi tecida
para crescer à sombra da opressão;
nenhuma alma nasceu para uma vida
aprisionada ao peso da submissão.

Este manifesto não aponta um homem,
nem busca em indivíduos a sentença;
há um sistema antigo que consome
e educa pela culpa e pela ausência.

Ensinou-nos a pedir autorização,
a duvidar do próprio pensamento,
a colocar por último o coração
e a chamar virtude ao sofrimento.

Àquelas que perguntam, em segredo,
se podem escolher outro caminho:
não façam da prudência vosso medo,
nem da renúncia o vosso desatino.

Não é rebeldia desejar existir,
nem arrogância recusar correntes;
é simplesmente o direito de sentir
e caminhar com passos conscientes.

Ser companheira não é obediência,
nem o amor se mede pelo sofrer;
respeito não exige penitência,
nem pede que se deixe de viver.

A emancipação não rompe afetos,
nem faz do encontro um campo de batalha;
ela constrói vínculos mais completos
e retira das relações a velha muralha.

Que outras mulheres saibam, finalmente:
nenhuma vida espera validação;
ninguém se torna menos ou mais gente
por receber alheia aprovação.

Este é um chamado à consciência,
uma abertura erguida pela mão;
não nasce do desejo de violência,
mas da esperança de transformação.

Que cada mulher reconheça em si
o direito de escrever sua memória,
sem culpa pelo que deseja ou é,
tornando-se sujeito da própria história.

Emancipar-se é rasgar antigos mapas,
romper o texto imposto às nossas vidas;
é recusar as normas e as etapas
que mantiveram tantas oprimidas.

É dizer, em voz firme e sem receio:
nenhuma mulher precisa permissão;
não há tutor para o próprio anseio,
nem dono para a própria condição.

Emancipar-se é rejeitar a armadilha
que nos divide em disputa e solidão;
é transformar em ponte cada filha
e fazer da sororidade uma canção.

Não disputamos restos nem migalhas,
nem caminhamos umas contra as outras;
alargamos estradas e muralhas,
fazendo florescer novas rotas.

Porque a liberdade verdadeira
não vive só na escolha individual;
ela se ergue inteira e duradoura
quando é de todas, justa e universal.

Que nenhuma mulher abaixe a fronte,
nem peça desculpas por existir;
que seja rio, tempestade e ponte,
livre para sonhar e para seguir.

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