Há algo de curioso e talvez contraditório na forma como celebramos o tempo. A virada do ano é tratada como um rito de passagem quase sagrado, como se o calendário tivesse o poder de suspender o que fomos e inaugurar, por decreto, algo novo. Mas o tempo não se dobra às nossas contagens. Ele não começa nem termina à meia-noite. Apenas segue.
Nunca compreendi totalmente essa alegria ruidosa por mais uma volta ao redor do sol. O movimento é o mesmo, a órbita se repete, e nós permanecemos atravessados pelas mesmas inquietações, pelas mesmas faltas, pelos mesmos desejos ainda inacabados. O que muda, afinal? O número? A convenção? A necessidade humana de organizar o caos em marcos visíveis?
Entendo, e respeito, o sentimento de recomeço. Ele nasce do cansaço, da esperança ferida que precisa de um ponto de apoio para não desistir. Mas talvez o problema esteja em condicionar a possibilidade de mudança a uma data específica. Como se o amanhã só pudesse ser melhor quando autorizado por um novo ano, e não por uma decisão íntima, silenciosa, cotidiana.
Se o recomeço é legítimo, ele deveria ser permanente. Um compromisso diário com a possibilidade de ser outro , ou, quem sabe, um pouco mais fiel a si. Pensar que amanhã pode ser melhor do que hoje não deveria ser exceção comemorável, mas exercício constante de resistência.
Talvez a verdadeira virada não esteja no tempo que passa, mas em como habitamos o tempo que nos é dado. E isso não exige fogos, nem brindes, nem aplausos. Exige consciência. E, sobretudo, coragem para recomeçar mesmo quando o mundo não está
em festa.
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