Fui chamada de desvio
antes mesmo de saber
que existiam trilhas prontas.
Desde a infância,
meu passo não cabia no compasso imposto.
Perguntava o porquê das cercas,
testava a firmeza das regras,
aprendi cedo que obedecer
não era sinônimo de viver.
Disseram que eu era demais.
Pergunta demais.
Voz demais.
Corpo demais que não se encolhia.
Carreguei o peso de um feminino
que não era o esperado.
Não por perversidade,
mas porque o desenho que sonharam para mim
não comportava meus contornos.
Hoje, adulta,
não busco mais provar nada.
Abro.
Abro espaço.
Abro caminho.
À minha filha ofereço o chão
que me foi negado,
o direito de existir inteira,
sem pedir licença para ser quem é.
E aqueles que antes temiam minha força
agora a nomeiam.
Reconhecem.
Sabem:
se fui ovelha fora do rebanho,
foi porque alguém precisava aprender
que também há vida
do lado de fora da cerca.
Luany de Macedo Nascimento
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