Ainda vale escrever
quando a palavra precisa competir
com dedos apressados
e reels de quinze segundos?

Escrever dói porque exige demora.

Exige ficar
onde tudo manda passar.
Enquanto o mundo desliza,
a frase pede corpo,
pede fôlego,
pede atenção.

Vivemos de lampejos:
rostos que não permanecem,
ideias que não aprofundam,
emoções descartáveis
como histórias que expiram ao amanhecer.
A vida virou rascunho
que ninguém revisa.

E ainda assim,
há algo na escrita que não aceita pressa.
Ela não dança para o algoritmo,
não se curva ao gesto automático do “próximo”.
A escrita pede permanência
num tempo que odeia raízes.

Escrever hoje
é escolher não ser raso.
É alongar o pensamento
quando tudo exige redução.
É dizer: eu fico
num mundo que só sabe partir.

Talvez ninguém leia.
Talvez fique perdido entre tantos outros,
Mas escrever nunca foi sobre aplauso
foi sobre sustentar o que ainda pensa
numa época que desaprendeu a escutar.

Enquanto houver alguém
disposto a permanecer numa frase
mais tempo do que dura um vídeo,
escrever ainda vale.

Porque onde tudo escorre,
a palavra que permanece
é um gesto de insubmissão.


Luany de Macedo Nascimento
09/01/2026

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