Ainda vale escrever quando tudo quer correr,
quando a palavra disputa com o instante a atenção,
com dedos apressados que não param para ver,
e vídeos curtos moldando o ritmo da percepção.

Escrever dói porque exige permanecer,
ficar onde o mundo insiste em nos fazer passar,
é sustentar o tempo sem se dissolver,
enquanto tudo ao redor só quer deslizar.

A frase pede corpo, silêncio e duração,
pede fôlego longo, densidade no sentir,
não nasce do impulso, nem da distração,
mas do gesto insistente de parar e existir.

Vivemos de lampejos, de presença interrompida,
rostos que atravessam sem jamais se fixar,
emoções que se gastam na superfície da vida,
como histórias breves que não chegam a ficar.

Ideias não aprofundam, só passam em exibição,
descartáveis como o que não precisa durar,
a vida virou rascunho sem revisão,
um texto apressado que ninguém quer reler ou cuidar.

E ainda assim a escrita se recusa a ceder,
não dança conforme o cálculo do algoritmo,
não aprende o gesto fácil de apenas suceder,
nem se curva à pressa que empobrece o ritmo.

A escrita pede raízes em tempo de dispersão,
exige permanência onde tudo quer fugir,
é quase um desacato, uma negação,
de um mundo que desaprendeu a insistir.

Escrever hoje é recusar a superfície do ser,
é alongar o pensamento contra toda redução,
é dizer “eu fico” onde mandam desaparecer,
é sustentar presença como forma de insubmissão.

Talvez ninguém leia, talvez se perca no fluxo,
entre tantas vozes que disputam o olhar,
mas nunca foi sobre aplauso ou luxo,
foi sobre o que insiste em não se calar.

Escrever é guardar o que ainda pensa,
num tempo que já não sabe escutar,
é manter viva a escuta densa,
quando tudo só quer passar.

Enquanto houver quem escolha permanecer,
mais tempo numa frase do que num refrão,
a escrita ainda encontra razão de ser,
mesmo contra o tempo da dispersão.

Porque onde tudo escorre sem deixar raiz,
a palavra que fica se torna resistência,
um gesto mínimo, talvez, mas feliz,
de quem ainda aposta na permanência.


Luany de Macedo Nascimento
09/01/2026

2 comments:

Texto muito bonito e sincero.

Olá, caro leitor. Agradeço pela leitura e pelas palavras! Abraço!

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