Há um silêncio que não pede socorro,
apenas chega e fica sem razão,
um cansaço antigo, denso e morno,
que aprende a morar no corpo em vão.
Como um móvel gasto pelo tempo,
cuja origem já se perdeu,
permanece ali, sem movimento,
como algo que nunca partiu nem cedeu.
Os dias pesam na existência,
não por excesso, mas por falta,
há um vazio feito de ausência
que lentamente me ressalta.
O tempo passa em tom contido,
sem urgência ou direção,
um fluxo lento e esmaecido,
sem promessa ou redenção.
Não é dor que sangra aberta,
é ausência cheia de lugar,
um vazio que se desperta
nos restos que não sei nomear.
Nomes que aos poucos desaprendi,
afetos sem forma ou cor,
fragmentos que perdi em mim
no esvaziar do próprio amor.
Sinto pouco, quase nada,
e isso dói sem tradução,
uma dor que não é falada,
mas ocupa o coração.
Como se o pulso diminuísse,
para poupar o próprio existir,
como se a vida decidisse
cansar antes de prosseguir.
Rir tornou-se coisa distante,
uma lembrança que não é mais,
chorar exige o bastante
de uma força que não se faz.
Há um incômodo silencioso,
sentado ao lado a observar,
um olhar manso e nebuloso
que já não tenta explicar.
A solidão não faz ruído,
não invade, não anuncia,
ela fica, sem ter sido
convidada a algum dia.
Fica entre mim e o que fui,
entre o agora e a lembrança,
no espaço que já não flui
onde antes havia esperança.
Fica no centro da sala vazia,
ocupando o que restou,
onde antes havia energia,
agora só o eco ficou.
E ainda assim respiro,
mesmo em exaustão,
raso, lento, quase um suspiro,
movido mais por inércia que ação.
Viver tornou-se sustentar
o mínimo que ainda há,
manter-se em pé, sem desabar,
com o pouco chão que resta cá.
Confiar que o corpo aguenta
mais um dia sem ceder,
mesmo quando tudo tenta
me puxar para não ser.
Não é vontade de partida,
é um cansaço de continuar,
uma fadiga antiga da vida
que não aprende a cessar.
Não grita, não ameaça,
não rompe em explosão,
apenas insiste e traça
seu ciclo de repetição.
Esse pensamento que vem e recua,
não pede fim nem solução,
quer silêncio na alma nua,
outra forma de percepção.
Outro jeito de existir,
que não doa tanto em mim,
um modo leve de seguir
sem carregar tanto assim.
É um estado-limite, contido,
não escolha nem decisão,
um pedido quase esquecido
por alguma abertura no chão.
Por uma vida que aconteça
sem esforço de sustentar,
que o existir não endureça
nem precise se arrastar.
Que não seja só ausência
evitando o colapso final,
mas presença em existência
menos dura, menos brutal.
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