Não sou historiadora de formação, escrevo a partir de leituras, registros e de uma inquietação que brota toda vez que o poder se ergue sob o pretexto de moralidade ou segurança. O que está se desenrolando hoje na Venezuela, um ataque aéreo, bombardeios sobre a capital Caracas e a captura do presidente de um país soberano, não pode ser analisado apenas como um incidente militar. Trata-se, antes de tudo, da cristalização de um padrão histórico de intervenção e dominação que tem os Estados Unidos como ator central.

Quando Donald Trump anuncia que Nicolás Maduro foi capturado e levado para fora da Venezuela, em um gesto que por si só redefine brutalmente os limites da soberania internacional, não é apenas um chefe de Estado que muda de lugar. O que se move ali é uma longa tradição de justificativas ideológicas utilizadas como cobertura para interesses concretos de poder, controle e exploração de recursos.

Ao longo do século XX e início do XXI, os Estados Unidos apresentaram sucessivas narrativas para legitimar intervenções em solo estrangeiro. A chamada ameaça comunista sustentou golpes e invasões durante a Guerra Fria. A defesa da ordem democrática passou a funcionar como cortina de fumaça para ocupações militares. As falsas alegações sobre armas de destruição em massa no Iraque resultaram em uma guerra devastadora. O combate ao terrorismo e ao narcotráfico, em muitos contextos, revelou-se um pretexto flexível para incursões militares e ingerências políticas profundas.

Iraque, Afeganistão, Líbia e agora Venezuela compartilham o mesmo fio condutor. A legitimidade pública é construída com palavras grandiosas, enquanto no centro do processo permanecem interesses econômicos e geopolíticos muito bem definidos.

Hoje, na Venezuela, ao mobilizar a ideia de narcotráfico e de ameaças transnacionais como justificativa parcial para a operação, ainda que numerosos observadores questionem a materialidade dessas acusações, o governo Trump apenas reafirma um princípio antigo. Criminaliza-se politicamente um país, desloca-se o foco do debate público e, em seguida, legitima-se a invasão de territórios que concentram recursos estratégicos.

O recurso mais evidente tem nome conhecido. Petróleo.
A Venezuela detém a maior reserva de petróleo do mundo, um bem que, no tabuleiro geopolítico, se torna tão estratégico quanto fronteiras militares ou bases de guerra. Quando Trump afirma, em entrevista, que este foi o maior ataque militar desde a Segunda Guerra Mundial e que os Estados Unidos irão administrar a Venezuela e, por consequência, seu petróleo por algum tempo, a retórica humanitária se desfaz. Não se trata de salvar um povo, combater o narcotráfico ou promover democracia. Trata-se de reconfigurar o controle sobre recursos que sustentam o sistema global de energia e poder.

É fundamental deixar claro que esta análise não representa a defesa de governos autoritários ou ditatoriais como o de Nicolás Maduro. Reconhecer os limites, contradições e violações internas de um regime não implica aceitar que uma potência estrangeira invada um país soberano. A crítica ao autoritarismo interno é legítima, mas nenhuma crítica justifica a violação da soberania nacional por meio de bombardeios, ocupação militar e captura forçada de lideranças políticas.

O que está em jogo vai muito além da política interna venezuelana. Trata-se de uma questão histórica e estrutural. Quem decide sobre os destinos de um povo e de seu território. A história das intervenções ensina que, sempre que uma potência invade outro país sob a bandeira de um ideal moral, é preciso perguntar não apenas quem está sendo atacado, mas o que está sendo protegido e a serviço de quem.

Hoje, esse o que atende por um nome claro. Petróleo, recursos naturais, influência global. Não o bem-estar nem a autodeterminação do povo venezuelano. O que assistimos não é apenas geopolítica em ação, mas a repetição de uma lógica imperial que transforma países em territórios administráveis, enquanto o sofrimento humano aparece como dano colateral ou discurso conveniente.

A história que se escreve diante de nós não é nova. É apenas mais um capítulo de uma longa tradição em que fins econômicos são justificados por discursos morais, e a soberania dos povos segue sendo a primeira vítima.

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