A pergunta atravessa séculos da Filosofia como atravessa o corpo: sem pedir licença, sem oferecer respostas fáceis. Epicuro, com sua sobriedade radical, recusou o delírio. Para ele, felicidade nunca foi excesso, nem euforia permanente, nem triunfo sobre a vida. Foi, antes, a delicada suspensão da dor. Quando o corpo não grita e a alma não se agita, algo semelhante ao sossego se instala. A isso ele chamou ataraxia. Nada de promessas grandiosas. Apenas o direito de respirar sem medo.
Mas há experiências que tornam essa definição ainda mais estreita. Quem atravessou a própria mente como quem atravessa ruínas sabe: mesmo o sossego é instável. A dor não é apenas um acidente da vida; às vezes, ela parece estrutural. É nesse ponto que Schopenhauer se impõe, não como complemento otimista, mas como aprofundamento incômodo. Para ele, a existência é movida por uma vontade incessante, cega, insaciável. Desejamos. Quando não alcançamos, sofremos. Quando alcançamos, nos entediamos. A vida oscila entre esses dois polos, sem repouso duradouro. Um pêndulo.
A felicidade, então, começa a parecer não apenas rara, mas quase um erro de linguagem.
Talvez não exista como estado. Talvez nunca tenha existido. O que existe é o movimento contínuo de tentar preencher algo que não se deixa preencher. Procuramos nas pessoas, nas conquistas, nos afetos, nos remédios controlados, até mesmo na ideia de “estar bem”, uma espécie de solução definitiva para o mal-estar de existir. E quando isso falha (porque sempre falha) não é a vida que fracassa: é a expectativa. A felicidade, quando tentamos segurá-la, escapa. Quando acreditamos tê-la alcançado, ela já mudou de forma. Não se fixa. Não mora. Passa.
Mas a vida não é contínua. Ela pulsa. E pulsa em breves clarões.
E talvez seja aí que a vida se torne suportável. E, em certos instantes, até bela.
Na arte, na música, na contemplação, deixamos de querer por um instante. Não somos felizes: somos menos dilacerados. Por isso, talvez seja mais honesto falar em momentos alegradores. Não como diminuição, mas como precisão. Momentos que duram o tempo exato de sua necessidade. Um riso inesperado. Um silêncio que não pesa. Um pensamento que, por instantes, não machuca. Um dia que não dói. Um dia em que o pensamento não se volta contra si mesmo. Um instante em que a vontade afrouxa e a dor se ausenta. Eles não prometem salvação, mas oferecem fôlego. E isso, para quem já sofreu tanto, é imenso.
Talvez não sejamos feitos para ser felizes o tempo todo. Talvez sejamos feitos para reconhecer, com delicadeza e sem alarde, os instantes em que a vida não aperta. E permitir que eles sejam o que são: breves, verdadeiros, suficientes.
Nas entrelinhas do cotidiano, longe dos discursos grandiosos e das exigências de felicidade, esses momentos existem. São discretos, quase tímidos. Exigem outro tipo de olhar: menos ansioso, menos idealizado, mais atento. Ampliar a lente não para buscar sentido absoluto, mas para reconhecer o alívio quando ele passa.
Talvez não sejamos feitos para ser felizes.
Talvez sejamos feitos para resistir com lucidez.
E, no meio disso, aprender a acolher, sem alarde, os instantes em que a vida não dói.
Isso não é pouco.
É profundamente humano.
Demasiadamente humano.
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