Volto ao passado como quem embaralha a própria memória. As cartas não estão mais sobre a mesa, mas ainda escuto, de forma nítida, íntima, o som das fichas deslizando entre os dedos. Como eu amava aquele barulhinho. Era quase um mantra: metal contra metal, promessa de jogo, de risco. Cada ficha carregava uma história, cada pote, um pequeno abismo.
Lembro dos campeonatos, das mesas cheias, dos olhares que mediam mais do que cartas. No poker, aprendi cedo que nem todo blefe está na mão, muitos estavam nos rostos que duvidavam de mim antes mesmo de abrir o flop. Enfrentei o machismo como quem encarava um all-in inevitável, um atrás do outro: com medo, sim, mas sem recuar. Fui ficando. Fui jogando. Fui vencendo algumas mãos. Até que, meu nome ecoou como algo improvável e real: a primeira mulher a vencer um torneio misto no estado. Não foi só um troféu. Foi uma fissura aberta num lugar que insistia em me negar. Não exatamente a mim, mas a figura feminina.
Eu encarava os jogadores. Encará-los fazia parte do meu jogo e eu encarava sem medo. O olhar firme era minha primeira aposta. Antes mesmo das cartas, antes das fichas, havia esse gesto silencioso de presença. Eu estou aqui. Não desviava. Não recuava. Ia fundo.
Psicologicamente, isso dizia muito sobre quem eu era naquele momento. Não se tratava de imprudência, mas de coragem. Eu conhecia o risco e, ainda assim, escolhia avançar. O medo até podia existir em algum lugar distante, mas não governava minhas decisões. Eu confiava na minha leitura e na minha capacidade de sustentar as consequências do que escolhia jogar. Encarar os jogadores era também encarar a mim mesma.
Uma vez eu disse que encarava cada torneio de poker como um gladiador na antiga Roma. E não era exagero. A mesa era a arena, os olhares ao redor funcionavam como julgamento, e cada aposta carregava o peso de algo irreversível. Eu entrava sabendo que ali nada era garantido. Era resistência, estratégia e coragem. Como os gladiadores, eu não lutava apenas contra o outro, mas contra o erro, a impulsividade e a dúvida.
Não era impulso. Era cálculo. Probabilidade. Leitura corporal. Psicologia. Cada decisão nascia do cruzamento entre números e comportamento humano. As cartas diziam uma parte da história, mas os corpos entregavam outra. Um olhar que vacila, uma mão inquieta, uma respiração fora do ritmo. Jogar poker era decifrar sinais mínimos, antecipar movimentos, compreender como cada pessoa reagia sob pressão.
Agora, ao relembrar sobre o poker não apenas como quem revisita um esporte, mas como quem revisita um estado de espírito. Sentar à mesa era, antes de tudo, um exercício psicológico profundo, um mergulho silencioso em mim mesma e nos outros. O barulho das fichas era mais do que som. Era ancoragem. Organizava o pensamento, desacelerava o caos interno, lembrava que ali o tempo obedecia a outra lógica.
O poker me ensinou a sustentar o olhar, a habitar o silêncio, a tolerar a incerteza. Era um campo constante de tensão interna. Controlar o impulso, acolher o erro, aceitar a perda sem permitir que ela definisse quem eu era. Cada mão exigia presença plena. Não havia espaço para dispersão nem para máscaras frágeis. O jogo pedia leitura fina do outro, escuta do que não era dito, atenção aos detalhes mínimos que escapam quando havia vacilos.
Enfrentar o machismo também foi uma batalha psíquica. Não era apenas vencer mãos, era suportar o peso de ser subestimada, testada, provocada. Muitos apostavam contra mim antes mesmo de eu tocar nas cartas. Permanecer ali exigiu construir uma fortaleza interna. Não reagir ao deboche, não internalizar o descrédito, não permitir que o ruído externo sabotasse a clareza mental. Vencer esse primeiro torneio misto foi, nesse sentido, um marco psicológico antes de ser esportivo. A confirmação de que minha mente permanecia firme onde tentaram me fragilizar...
Sinto falta do jogo porque sinto falta desse espelho psicológico. Sempre gostei de observar o comportamento humano sob pressão. O poker escancara defesas, revela traços, desnuda estratégias. No ao vivo, o corpo fala, o olhar trai, a respiração entrega. O online nunca me ofereceu isso. Faltava o confronto real, a presença, o jogo invisível que acontece quando se está frente a frente.
Minha trajetória foi curta, tal um cometa. Intensa, veloz. Durou cerca de um ano e meio. Tempo suficiente para me atravessar inteira. Meu último campeonato foi em 2015. Despedi-me com um “até logo” silencioso e mais um troféu nas mãos, como quem fecha um ciclo sabendo que ele não se esgota ali.
Já são dez anos desde o último troféu. Dez anos desde que deixei as mesas de poker. Ainda assim, a memória corporal permanece. Quero retornar em breve, não para competir com o passado, mas para reencontrar esse lugar interno onde eu me sentia viva. Jogar poker era um modo de existir com intensidade e consciência. Um espaço onde eu me regulava, me observava e me afirmava. Talvez voltar seja apenas isso. Escutar novamente essa parte de mim que sabia respirar fundo, calcular riscos, encarar, ir fundo e seguir. Viva. Sem medo.

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