Às vezes, ela se sente invisível ao atravessar o existir,
como corpo translúcido que o mundo não consegue fixar,
presente sem deixar marca, sem sequer refletir,
existindo num intervalo que ninguém chega a notar.
É como se o ar passasse por ela sem resistência,
como se o olhar tocasse, mas não fosse capaz de ver,
uma presença suspensa, quase ausência em permanência,
num mundo que observa sem realmente perceber.
Ela se percebe um objeto com falha de concepção,
como brinquedo esquecido fora do padrão esperado,
não por quebrar com facilidade ou faltar função,
mas por não cumprir o papel que lhe foi projetado.
Ficou na prateleira do tempo sem ser escolhida,
não por ausência de brilho ou qualquer imperfeição,
mas por carregar sensibilidade em excesso na vida,
num mundo que valoriza dureza como condição.
Há dias em que se olha de fora, sem conseguir se habitar,
como quem analisa algo deslocado do lugar,
pergunta-se em que ponto começou a falhar,
ou em que curva deixou de se adequar.
Mas resposta alguma se apresenta de modo claro,
nenhuma explicação vem para enfim sustentar,
talvez o erro não seja dela, por mais que pareça raro,
talvez seja o molde que nunca soube a comportar.
Carrega no peito um cansaço que não começou agora,
feito de silêncios guardados e tentativas de caber,
aprendeu cedo que existir fere e devora,
mas também que essa dor precisa se esconder.
Cala para não pesar, silencia para não incomodar,
sorri quando consegue, recolhe-se ao não suportar,
vai sobrevivendo onde mal consegue respirar,
entre ausências longas e pausas para não desabar.
Ainda assim, algo nela insiste em não ceder,
nem ao silêncio imposto, nem ao lento esquecer,
não permanece por vitória ou por querer vencer,
permanece por recusa, por não se dissolver.
Respirar já não é gesto simples de viver,
é afronta lançada contra o que manda cair,
quando tudo ao redor ordena desaparecer,
ela insiste, mesmo sem promessa de prosseguir.
E talvez não haja sentido que se possa explicar,
nenhuma razão maior que venha justificar,
senão esse gesto mínimo de continuar,
como quem fere o próprio fim ao não se apagar.
Luany de Macedo Nascimento, 15/01/2026
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