Hoje à tarde até à noite foi de Raul Seixas. E não por acaso. Raul sempre aparece quando o mundo exige mais lucidez do que eu tenho vontade de sustentar. “Por quem os sinos dobram” não é uma música que me acompanha de qualquer forma. Ela me atravessa por inteira. Ouvir Raul é retornar a um lugar conhecido, que nunca foi confortável, mas sempre foi verdadeiro. Há canções que não envelhecem porque não pertencem ao tempo. Pertencem às fissuras. Elas permanecem porque tocam em feridas que não cicatrizam. Apenas mudam de forma, aprendem novos nomes, doem em outros registros. As pessoas deveriam ouvir mais Raul Seixas.
Essa música não consola. Ela encara. Não oferece abrigo nem promessa de final feliz. É um espelho sem filtro, desses que não escondem as olheiras da alma nem disfarçam o cansaço de existir. Raul chega quando estou cansada de ser forte.
Foi assim também na universidade.
Cheguei tímida. Com medo de falar. Medo de ocupar um espaço que, por muito tempo, aprendi a achar que não era para mim. Cada fala em voz alta exigia coragem. Cada texto entregue vinha atravessado pela dúvida antiga sobre me sentir insuficiente. No início, eu observava mais do que falava. Escutava. Mas, mesmo com o medo latejando, algo insistia em permanecer.
As oportunidades começaram a surgir como convites desconcertantes. Seleção para monitoria. Residência Pedagógica. Convite para realizar pesquisa de iniciação científica. Cada edital aberto era também um abismo. A possibilidade de avançar e o desejo quase automático de recuar. E toda vez que o medo tentava dar as caras, e ele deu muitas vezes, eu repetia para mim mesma, como quem se segura em algo para não afundar:
“Coragem, coragem, se o que você quer é aquilo que pensa e faz;
Coragem, coragem, eu sei que você pode mais.”
Repetia como mantra. Não porque acreditasse plenamente, mas porque precisava continuar mesmo sem acreditar. Coragem para me inscrever. Coragem para ser avaliada. Coragem para ser vista. Coragem para falar em público. Coragem para não desistir antes. Essa música esteve ali quando fui aprovada, mas também quando duvidei de tudo. Esteve nos melhores momentos, quando percebi que havia algo de verdadeiro no meu desejo de ensinar, pesquisar e pensar o mundo. E esteve nos piores, quando o peso interno tornava cada dia um exercício silencioso de sobrevivência.
Essa “coragem” nunca foi épico. Nunca teve nada de heroína. É uma coragem miúda, cotidiana, sem palco e sem aplauso. A coragem de levantar da cama quando não há garantias. De permanecer quando fugir parece mais sensato. De não desistir de si, mesmo quando tudo dentro pede descanso definitivo.
Transformei esse refrão em mantra porque ele não promete salvação. Ele não diz que vai passar e nem que vai dar certo. Ele apenas exige presença. E, para quem já atravessou abismos internos, estar presente já é um gesto profundamente político. Permanecer é resistir. Falar é existir. Insistir é dizer ao mundo, e a si mesma, que ainda há algo que pulsa, mesmo cansado, mesmo ferido.
E então, de novo, bem baixinho, quase como um sussurro para não quebrar: Coragem, coragem...
Agora o que está a tocar é “No fundo do quintal da escola”. E não como trilha inocente, mas como provocação. A canção escancara o incômodo de caminhar sem mapa, de sustentar um percurso que não cabe nas expectativas alheias. “Não sei onde eu tô indo, mas sei que eu tô no meu caminho” não é confissão de desorientação, é afirmação de autoria. Há uma crítica clara à necessidade constante de justificar escolhas, de explicar rotas, de apresentar garantias. Enquanto alguém observa de fora, critica e espera respostas organizadas, o sujeito da música está ocupado vivendo. Não se trata de desprezo pelo pensamento, mas de recusa à vida adiada em nome de um futuro que nunca chega.
O fundo do quintal da escola surge como metáfora de ruptura e desvio. Enquanto a turma se reúne, se ajusta, joga conforme as regras, ele pula o muro. Esse gesto simples carrega uma crítica profunda às instituições que prometem formação, mas muitas vezes ensinam conformidade. Pular o muro não é abandonar o aprendizado, é buscar outro tipo de saber, aquele que nasce da experiência, do risco e do corpo em movimento. “Eu não me pergunto, eu faço” ecoa como um enfrentamento à paralisia provocada pelo excesso de controle e pela exigência constante de coerência. Raul lembra que há caminhos que só se revelam andando, e que viver também é um ato de desobediência quando se escolhe existir fora do roteiro esperado.
Entre sinos que dobram e muros de escola, sigo aprendendo que viver não é cumprir trajetos, é habitá-los. Com medo, com dúvida, com coragem, sendo si própria. Se não sei exatamente onde vou chegar, sei que o caminho eu irei encarar com verdade. E, enquanto houver uma faísca de vida, de inquietude, de dúvida, e esse impulso insistente de existir apesar de tudo, sigo. No meu caminho. Meio torta, às vezes fora da curva, mas inteira.
0 comentários:
Postar um comentário