Sou feita de permanências discretas.
Ardo em silêncio.
Carrego nos olhos a fadiga de quem pensou demais
e no peito a delicadeza dos que ainda sentem
mesmo quando o mundo já não promete.

Habito a fronteira entre o impulso e o recuo,
entre o desejo de partir
e a estranha fidelidade ao que dói.
Não sou heroína nem mártir:
sou apenas alguém que permaneceu
quando seria mais fácil dissolver-se.

Há em mim um cansaço antigo,
como se tivesse chegado tarde a todas as certezas
e cedo demais ao desencanto.
Aprendi que viver não é vencer,
mas sustentar o peso dos dias
sem permitir que eles me tornem rasa.

Trago afetos que não se acomodam,
amores que não pedem abrigo
e pensamentos que caminham à noite,
sem mapa, sem promessa de aurora.
Não procuro redenção,
procuro lucidez.

Se sorrio, é com cuidado.
Se amo, é com vertigem.
E quando me recolho,
não é fuga:
é respeito pela profundidade do que sou.

Sou feita de dúvidas férteis,
de uma tristeza que pensa,
de uma esperança que não se anuncia,
mas insiste.
E mesmo quando tudo em mim parece sombra,
há algo que permanece em pé
não por fé,
mas por consciência.

Não desejo eternidade.
Desejo verdade.
E sigo
não para ser vista,
mas porque existir, assim,
é o único gesto que me é possível.


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