Minha filha de nove anos me perguntou, um dia desses, com a sagacidade que só a infância ainda permite: por que algumas pessoas têm tanto dinheiro e outras não têm? Achou injusto. Disse que todos deveriam viver bem, não apenas quem tem muito dinheiro, havia espanto em seu questionamento e na conclusão a que chegou.
Sem saber, ela me perguntava sobre capitalismo, sobre sociedade de classes, sobre desigualdade estrutural. Perguntava aquilo que muitos adultos já não perguntam mais. Talvez não por ignorância, mas por cansaço. Pela sobrecarga de uma vida atravessada pela exploração, que nos ensina cedo demais a naturalizar o que deveria causar indignação.
A infância ainda não aprendeu a justificar o injustificável. Ainda não chama desigualdade de mérito, nem pobreza de falta de esforço. Ela olha e estranha. E esse estranhamento é profundamente político. Porque revela que a desigualdade não é evidente por natureza; ela precisa ser ensinada, explicada, normalizada para continuar existindo.
Talvez seja por isso que pensar incomode tanto. Porque começa, quase sempre, com uma pergunta simples demais para ser ignorada.
Caro leitor, antes de seguir, faça um pequeno exercício de honestidade: observe o mundo ao seu redor ou pense nele. Não como quem passa por ele apressado, mas como quem tenta enxergar as engrenagens. Aquilo que chamamos de “normalidade” não é neutro. É um projeto. E, quase sempre, não foi pensado para você.
Vivemos sob um sistema que naturalizou a desigualdade como mérito e a exploração como oportunidade. O capitalismo não se impõe apenas pela força econômica, mas pela produção de sentidos. Ele ensina a desejar, a competir, a culpar a si mesmo pelo fracasso e a aplaudir o sucesso alheio como promessa futura. Trabalhe mais, esforce-se mais, adapte-se melhor. Se não deu certo, o problema foi você.
A sociedade de classes não desapareceu, apenas aprendeu a se disfarçar. Já não se fala abertamente em exploradores e explorados, opressor e oprimidos, ou proletários e burguesia (a depender de qual autor) mas em vencedores e perdedores. O conflito estrutural é maquiado por discursos de empreendedorismo, inovação e superação individual. A exploração não some, ela muda de vocabulário.
Você já percebeu como seu tempo, seu corpo e sua inteligência são tratados como recursos? Não como vida, mas como investimento. Eis o coração da mais-valia: você produz mais do que recebe, mas aprende a agradecer pelo pouco que sobra. O excedente do seu esforço não retorna a você, retorna ao capital. E ainda lhe dizem que isso é liberdade.
Hoje, nem mesmo a força física é suficiente. Exige-se algo a mais: sua subjetividade. Seu entusiasmo. Sua criatividade. Sua capacidade de sorrir enquanto é consumido, sua proatividade, sua resiliência. Surge então o conceito de capital humano. Você não é mais apenas trabalhador, é empresa de si mesmo. Precisa se qualificar, se atualizar, se vender, se reinventar. O risco agora é todo seu. O lucro, não.
Na lógica do capital humano, descansar vira culpa e adoecer vira fracasso. Questionar vira improdutividade e não há espaço para fragilidade, apenas para performance. O sujeito não pode falhar, porque, se falhar, falhou sozinho. O sistema permanece intacto, enquanto o indivíduo se despedaça tentando caber nele.
E tudo isso acontece sob holofotes. Guy Debord já nos alertava: vivemos na sociedade do espetáculo, onde a realidade é substituída por sua representação. Não importa mais o que você vive, mas o que consegue mostrar. A vida vira vitrine. A luta vira estética. A miséria vira conteúdo. A indignação vira engajamento e, rapidamente, mercadoria.
O espetáculo não apenas distrai, ele neutraliza. Transforma a crítica em produto, a rebeldia em estilo, a revolta em slogan. Você consome imagens de sofrimento enquanto continua produzindo sofrimento. Assiste à desigualdade como quem assiste a uma série de tv: choca, emociona, mas termina com um próximo episódio.
E, nesse teatro permanente, o capitalismo se fortalece. Porque, enquanto você compara sua vida com imagens editadas, não percebe quem lucra com sua insatisfação. Enquanto disputa reconhecimento, não questiona a estrutura que o mantém em permanente escassez. Enquanto acredita que “basta se esforçar”, não vê que o jogo foi pensado para que poucos ganhem e muitos continuem tentando.
Nada disso se sustenta apenas pela força. Gramsci já nos advertia que o poder mais eficiente é aquele que governa com consentimento. A hegemonia se constrói quando os interesses da classe dominante passam a ser vividos como interesses da classe dominada. Não é preciso polícia o tempo todo quando o próprio sujeito se vigia, se cobra e se ajusta. A coerção continua existindo, mas atua de forma silenciosa, difusa, quase pedagógica. Ela aparece no medo do desemprego, na ameaça da exclusão, na culpa que recai sobre quem não consegue render. O consentimento, por sua vez, se produz quando a exploração é aceita como escolha, quando a desigualdade é interpretada como fracasso pessoal e quando o sistema deixa de ser percebido como problema. Assim, o capitalismo não apenas domina, ele convence e vence.
O neoliberalismo que vivemos atualmente não é apenas uma política econômica. É uma pedagogia social. Ele ensina como viver, como desejar, como se culpar. Sob sua lógica, o mercado deixa de ser uma esfera e passa a ser critério moral. O sujeito vale pelo que produz, pelo que acumula, pelo que consegue transformar em desempenho. Direitos se convertem em privilégios. Proteção social vira dependência. Solidariedade passa a ser vista como fraqueza.
Nesse cenário, a hegemonia se aprofunda. Já não é necessário impor pela força quando o próprio indivíduo internaliza a lógica da concorrência e da meritocracia. Cada um se torna rival do outro e, sobretudo, de si mesmo. O fracasso deixa de ser social e passa a ser falha pessoal. O desemprego vira falta de qualificação. A precarização vira flexibilidade. O esgotamento vira falta de resiliência.
O neoliberalismo radicaliza a ideia de capital humano. Não basta vender a força de trabalho; é preciso investir constantemente em si, atualizar-se, performar, competir, sorrir. O sujeito neoliberal é permanentemente em dívida consigo mesmo. Nunca é suficiente. Nunca rende o bastante. Vive sob avaliação contínua, mesmo quando ninguém está olhando.
E o espetáculo cumpre aqui um papel decisivo. Ele oferece narrativas de sucesso, imagens de superação, histórias de vencedores solitários que funcionam como promessa e ameaça. Se eles conseguiram, você também poderia. Se você não conseguiu, a culpa é sua. O espetáculo, assim, não apenas entretém, ele disciplina. Produz desejo, adesão e silêncio.
O mais perverso talvez seja isso: o neoliberalismo não precisa de sujeitos conscientes, precisa de sujeitos ocupados. Exaustos demais para pensar, endividados demais para recusar, culpados demais para resistir. A coerção permanece, mas se apresenta disfarçadamente de escolha. O consentimento se constrói como falsa liberdade.
Pergunte-se, leitor: quem ganha quando você se culpa? Quem lucra quando você aceita a exploração como escolha? Quem se beneficia quando você chama de sonho aquilo que é apenas sobrevivência?
Talvez o maior triunfo do capitalismo não seja a concentração de riqueza, mas a colonização do pensamento. Fazer com que o explorado defenda o sistema que o oprime. Fazer com que a desigualdade pareça natural. Fazer com que a injustiça pareça inevitável.
Pensar isso dói, porque desmonta a fantasia da neutralidade. Obriga a reconhecer que não estamos todos no mesmo barco. Alguns mal sabem nadar, enquanto outros controlam o leme. Obriga a admitir que a desigualdade não é acidente, é método.
Não espere conforto aqui, caro leitor. A crítica não consola, ela expõe. E expor é perigoso. Mas talvez seja o primeiro gesto de lucidez em um mundo que prefere sujeitos produtivos à sujeitos conscientes.
Diga-me, então: você vive para existir ou para render? Seu tempo é seu ou do capital? E, sobretudo, até quando chamaremos de liberdade aquilo que nos mantém exaustos, endividados e silenciosos?
Fique na pergunta. Ela não gera lucro. Mas talvez gere consciência.
Caso queira comentar algo, sinta-se convidado. Vamos dialogar!
Luany de Macedo Nascimento, 12/01/2026
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