Minha recusa não nasce do desconhecimento, do ressentimento ou de alguma “ferida espiritual mal curada”, como gostam de insinuar. Ela nasce de uma posição intelectual, ética e política. O metafísico, para mim, não explica, ele desloca. Ele tira os problemas do chão da realidade concreta e os lança num plano abstrato, intangível, onde não podem ser verificados, confrontados ou transformados de forma efetiva.
Não acredito em destino, vibração, propósito cósmico ou energia universal porque essas ideias, embora muito reconfortantes, funcionam como atalhos explicativos que suspendem o pensamento crítico. Quando tudo se resolve no “campo energético”, nada precisa ser explicado em termos históricos, sociais ou materiais. A desigualdade vira desarmonia espiritual. A violência vira aprendizado da alma. A opressão vira prova kármica. E, nesse movimento, aquilo que é produzido por estruturas humanas deixa de ser responsabilidade humana.
Escolho o chão, não o céu. O concreto, não o invisível. A história, não o mistério. A ciência, a filosofia, a política e a análise material da realidade me oferecem algo que o metafísico jamais oferece: a possibilidade de compreender o mundo sem recorrer à fantasia, e de transformá-lo sem pedir permissão ao universo.
Não busco sentido fora de mim nem acima de mim. O sentido, quando existe, é construído na experiência humana: nas relações, no trabalho, na cultura, na linguagem, no conflito, na criação e na luta. A vida não me deve explicações transcendentes, nem eu devo a ela submissão espiritual. O acaso não me ofende, a finitude não me apavora, e a ausência de um plano divino não me desampara, ao contrário, me responsabiliza.
Ser ateia, para mim, é recusar a infantilização do pensamento. É não terceirizar a dor, o desejo ou a esperança para forças invisíveis. É encarar o mundo sem anestesia mística, sabendo que não há salvadores cósmicos, guias espirituais ou energias protetoras que façam o trabalho que cabe a nós. Tudo o que existe de belo, cruel, injusto ou possível nasce das ações humanas e é nelas que reside qualquer chance real de mudança.
Não procuro o metafísico porque ele promete consolo onde eu busco lucidez. Promete harmonia onde eu enxergo conflito. Promete sentido pronto onde eu prefiro a tarefa difícil de construir sentido. E, sobretudo, porque toda vez que o humano se ajoelha diante do invisível, algo muito visível permanece de pé: o poder, a dominação e a desigualdade.
Já ouvi diversas vezes que sou existencialista, mas rótulos sempre me pareceram insuficientes para dar conta de um pensamento em movimento. Reconheço, sem resistência, a proximidade com o existencialismo ateu, principalmente o sartreano, sobretudo na recusa de essências dadas e na afirmação de que nos constituímos na experiência. Concordo que não somos, estamos sendo: em processo, em conflito, em construção permanente. Esse entendimento, no entanto, não se esgota na interioridade do sujeito nem na ideia abstrata de liberdade individual, pois o movimento do vir-a-ser humano acontece sempre em um mundo já organizado, atravessado por relações de poder, por condições materiais e por determinações históricas que não escolhemos, mas com as quais precisamos lidar.
É nesse percurso concreto que o marxismo se torna um interlocutor indispensável. Não penso o sujeito isolado de suas determinações, nem a liberdade apartada das estruturas que a limitam ou a possibilitam. Talvez por isso me seja difícil habitar uma única caixa teórica: penso no entre, no tensionamento e no percurso, no qual o humano não se define por uma essência nem por um destino, mas pelo modo como age, resiste e se transforma no mundo enquanto está vivo.
É também por essa razão que recuso o metafísico. Não busco explicações fora da realidade concreta nem sentidos deslocados para planos invisíveis. Escolho o chão da história, das relações humanas e das condições materiais, porque é ali que os conflitos se produzem, as responsabilidades se colocam e qualquer possibilidade real de transformação se torna efetivamente possível.
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