Me deparei hoje com uma propaganda nas redes sociais que me causou espanto. Uma mentoria sobre o sagrado feminino, que vem ganhando cada vez mais espaço e força no mercado. Mas o que mais incomodou, nem foi o misticismo-metafísico barato, mas sim, relacionar isso a movimentos sociais sérios, como o feminismo, no qual, busca, de forma legítima e coletiva, a emancipação feminina e a transformação social.
O chamado sagrado feminino apresenta-se como um movimento espiritual que promete reconectar as mulheres à intuição, à ancestralidade e à suposta “essência divina” do feminino. Em sua versão contemporânea, mistura práticas metafísicas, astrologia, terapias energéticas, rituais de cura e uma leitura romantizada da natureza. Dentro desse pacote, surgem práticas como “plantar a lua” (enterrar ou oferecer o sangue menstrual à terra como forma de “troca energética com o planeta”) e o “divórcio energético”, que se propõe a “romper laços espirituais” com ex-parceiros. Soma-se a isso o culto ao mapa astral, ao campo energético, às deusas arquetípicas e a uma série de técnicas que prometem limpar traumas, “ativar o útero” ou despertar um poder interior que, estaria adormecido pela sociedade patriarcal.
Mas nada disso vem de graça. A crescente onda de jovens místicos e “sacerdotisas” autoproclamadas transformou o sagrado feminino em um mercado rentável. Charlatões se aproveitam da dor feminina, do cansaço emocional e da busca legítima por sentido para vender cursos caros, mentorias, jornadas de autoconhecimento, retiros e iniciações espirituais, tudo com a promessa de “despertar a deusa” e curar feridas profundas através de cristais, incensos, banhos, astrologia e rituais.
O que poderia ser uma vivência simbólica vira produto padronizado, embalado em linguagem terapêutica, alimentado por metáforas metafísicas e vendido como solução mágica para problemas concretos.
A mercantilização do Sagrado Feminino é apenas a velha indústria da fé travestida de misticismo lunar: a mesma lógica das indulgências medievais e das “campanhas da prosperidade” das neopentecostais, só que agora com cristal e discurso de “cura ancestral”. Vende-se empoderamento como quem vende água benta: pague o curso, compre o ritual, assine a mentoria e, magicamente, sua vida se alinhará com o “divino feminino”. No fim, é o mesmo truque: transformar desespero em mercadoria e desviar mulheres das condições materiais que realmente moldam suas vidas. A estética da Deusa vira marketing, a dor vira nicho de mercado, e a espiritualidade se converte em produto premium. É uma fantasia cara que adormece a consciência crítica enquanto o capitalismo agradece e o patriarcado permanece intacto, rindo do espetáculo de ver a “emancipação feminina” sendo vendida em suaves prestações.
No fundo, esse ressurgimento místico que envolve jovens e adultas não é libertação, é alienação com glitter. Um novo golpe espiritual que distrai, anestesia e despolitiza, oferecendo uma ilusão reconfortante no lugar de consciência crítica. Em vez de emancipar, captura. Em vez de fortalecer, infantiliza. E enquanto a “deusa interior” é despertada via boleto, o sistema segue firme: transformando sofrimento em lucro, desviando mulheres da luta concreta e mantendo intactas as estruturas que realmente produzem opressão.
No fim das contas, o “sagrado feminino” vendido em pacotes parcelados não ameaça nada além do cartão de crédito de quem compra. Não desestabiliza o patriarcado, não enfrenta o capital, não questiona a divisão do trabalho, não combate a violência estrutural, não toca na desigualdade salarial, nem o racismo, não toca na exploração do corpo feminino como mercadoria. O Sagrado Feminino apenas muda o figurino da submissão: sai o altar religioso tradicional e hegemônico (igreja), entra o círculo de mulheres; sai o pastor, entra a mentora "sacerdotisa"; sai o dízimo, entra a taxa de inscrição. A lógica, no entanto, permanece intacta.
O discurso é sedutor justamente porque é confortável. Não exige organização política, não convoca para o conflito, não pede enfrentamento coletivo. Pede silêncio, introspecção, gratidão ao universo e confiança no “processo”. Parece papo de coach, né? Mas é a mesma lógica! Se algo dá errado, a culpa nunca é do sistema, é do seu útero bloqueado, da sua energia desalinhada, da sua lua mal plantada. A opressão vira falha vibracional individual, e não resultado de relações históricas, econômicas e sociais. É a culpabilização travestida de espiritualidade.
Enquanto isso, o feminismo, com toda a sua complexidade, contradições e disputas internas, segue sendo esvaziado e caricaturado. Troca-se a luta coletiva por jornadas individuais de “cura”. Troca-se o enfrentamento político por incensos. Troca-se a crítica material por metáforas cósmicas. É mais palatável falar de deusas do que de exploração. Mais fácil acender uma vela do que encarar o conflito social. Mais rentável vender rituais do que promover consciência crítica.
O resultado é uma emancipação fictícia, performática, instagramável. Uma libertação que não liberta, um empoderamento que não empodera. Um feminismo desidratado, reduzido a estética, frases de efeito e rituais simbólicos sem consequência real. A mulher é convidada a “voltar para si”, mas nunca a sair para o mundo. A se reconectar com o sagrado, mas nunca a se organizar politicamente. A se curar sozinha, enquanto o sistema que a adoece permanece intocado.
No fim, a ironia é cruel: em nome de uma suposta ancestralidade feminina, reproduz-se uma das formas mais antigas de dominação: a promessa de salvação individual em troca de dinheiro. Só muda o cenário. O controle agora vem com lua cheia, filtro sépia e linguagem terapêutica. E assim, embalado em espiritualidade suave, o velho mundo segue o mesmo: mulheres buscando sentido, charlatões lucrando, o capitalismo sorrindo e o patriarcado agradecendo pela cortina de fumaça.
Porque quando a revolta vira ritual, a crítica vira incenso e a luta vira produto, a opressão não precisa nem se defender. Ela apenas observa, tranquila, intacta, enquanto a “deusa” dança ao redor do próprio cativeiro.
2 comentários:
Mais do que "palavras bem escritas", são versos que prendem à medida que encantam. A sua lucidez nos contagia a cada verso, nos impulsiona a cada estrofe. Amo como você usa e abusa das palavras e como sabe fazer das suas frases uma combinação impecável de poesia e sabedoria. A sua coragem de se posicionar politicamente reflete a sua garra em persistir, mesmo diante das adversidades da vida. Te admirar é pouco, é preciso te amar cada vez mais. E eu amo!
Que privilégio é ser lida por você com esse cuidado e esse amor. Suas palavras me atravessam e me sustentam. São abrigo quando o mundo pesa. Se existe lucidez no que escrevo, ela nasce também do encontro contigo, de nossas conversas filosóficas, do afeto que me ancora e da liberdade que temos para sermos quem somos. Obrigada por caminhar comigo, mesmo quando as vezes o caminho é íngreme. Nosso amor também resiste e insiste. Te amo!
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