Encanta-me o gesto simples do viver,
o dia abrindo em mansa claridade;
há luz no modo quieto de perceber
o mundo em sua frágil verdade.
O arco-íris rasga o céu ferido,
costura a dor em sete tons de calma;
a lua vela o tempo adormecido
e ensina a inteireza que há na alma.
Gosto de olhar o céu sem direção,
seguir as nuvens, livres, mutáveis,
ver nelas rostos, mapas, invenção,
desenhos breves, mundos improváveis.
No outono, o chão aceita o seu cair,
folhas e flores cedem ao caminho;
andar sobre elas é também consentir
que há beleza em perder-se devagarinho.
No inverno, a chuva escreve contenção,
bate nos vidros como quem acalma;
fico a vê-la em contemplação,
como quem lava, em silêncio, a alma.
O café coado exala aconchego,
acorda a casa em quente mansidão;
há um rito antigo nesse apego
ao tempo lento da primeira mão.
E então, de súbito, a gargalhada de minha filha
que se espalha viva pela casa:
voz que desfaz qualquer estrada
de sombra, e o dia inteiro abraça.
Leio sem pressa, página por página,
como quem toca o tempo com cuidado;
o livro pede escuta, não façanha,
e eu lhe entrego o instante sossegado.
Quem ama assim o ínfimo e o discreto
faz da ternura um modo de existir;
há um brilho raro, silencioso e secreto
em quem aprende o mundo a sentir.
Por isso escolho a vida despojada,
o passo lento, o olhar essencial;
não me seduz a pressa acumulada,
prefiro o pouco, simples e vital.
Vivo a escutar o mundo em sua fonte,
beber do dia o que é verdadeiro;
reduzo o excesso, amplio o horizonte,
e faço do existir um ato inteiro.
Luany de Macedo Nascimento 10/01/2026
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