Tem dias em que a vida não tropeça em nós, ela empurra. E empurra com força. Justo quando a gente junta coragem, ajeita os ossos, respira fundo e decide tentar mais uma vez. Existe uma ironia quase cruel nesse movimento, como se o simples ato de levantar acionasse um gatilho invisível que chama o próximo tombo.
Tudo dá errado em sequência. Não como tragédia grandiosa, mas como acúmulo. O desgaste. A soma das pequenas derrotas que corroem por dentro. A sensação de estar sempre recomeçando, mesmo sem nunca ter saído do lugar. Enquanto alguns avançam com passos largos, há quem caminhe carregando o mundo nas costas. E quando se ousa dar um passo à frente, a vida puxa pelo tornozelo e arrasta muitos outros para trás. Não por falta de esforço, não por incompetência, não por escolha errada. Simplesmente porque o chão é mais escorregadio para uns do que para outros.
Viver entre tempestades cansa. Cansa planejar, sonhar pequeno, comemorar migalhas e ainda assim ver tudo ruir diante dos olhos. Cansa viver em estado de alerta, esperando o próximo rompimento, a próxima falta, a próxima falha. Como se a estabilidade fosse sempre provisória, sempre prestes a escapar das mãos.
O amargor não nasce apenas da vida difícil, mas da repetição. Da sensação constante de queda livre. De perceber que o esforço não garante retorno, que a persistência às vezes só prolonga a dor. A gente segue porque parar não é opção, mas seguir também machuca. Há dias em que tudo o que cabe é admitir, sem maquiagem e sem lição de moral, que está pesado demais. E continuar respirando, um dia de cada vez.
Ainda assim, mesmo quando tudo parece reduzido ao esforço de apenas continuar, a vida não se apresenta em grandes respostas. Ela não vem como virada, nem como consolo pleno. O que aparece são frestas. Pequenos gestos que não anulam o cansaço, mas o tornam habitável. Não aliviam a dor, mas a atravessam. É nesse território mínimo, onde nada se resolve por inteiro, que algo insiste em permanecer.
A vida, quando vista de perto, não faz alarde. Ela se revela em gestos pequenos, quase silenciosos, e é neles que a vida encontra motivos para querer acordar no dia seguinte. Às vezes é o riso da minha filha, solto e inteiro, desses que não pedem licença e reorganizam o mundo sem esforço. Um riso que atravessa a casa e me lembra que ainda existe beleza no agora, mesmo quando o dia amanhece pesado.
Há também o abraço do meu esposo, lugar de descanso antes mesmo do pensamento. Um abraço que não resolve tudo, mas sustenta. Que não promete respostas, mas oferece presença. E isso, tantas vezes, basta. Como basta ouvir a voz dos meus pais pelo telefone, esse fio delicado que me ancora, que me devolve ao lugar de onde vim e me lembra que continuo sendo filha.
Entre um pensamento e outro, acendo um cigarro. Não como fuga, mas como pausa. Um breve acordo com o silêncio, em que o tempo desacelera e as palavras começam a se ajeitar por dentro. A fumaça sobe, os pensamentos se espalham, e fico ali, tentando escutar o que quer ser escrito em seguida.
A simplicidade da vida mora nesses instantes quase invisíveis para quem vive com pressa. Ela não grita, não exige atenção. Ela se oferece. E quando a gente aprende a olhar com cuidado, percebe que é isso, o riso, o abraço, a voz, o instante suspenso, que faz com que a gente queira acordar novamente no dia seguinte. Não por grandes acontecimentos, mas porque viver assim, simples e atravessado de afeto, ainda vale a pena.
Luany de Macedo Nascimento
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