Há dias em que tudo transborda,
e outros em que o mundo se desfaz,
entre extremos que a alma recorda,
aprendo a viver no intervalo em paz.
No meio da rotina que insiste,
duas vezes ao dia, sem alarde,
o gesto simples que ainda persiste
segura o tempo que em mim arde.
Lítio não vem como promessa,
nem como cura ou salvação,
é presença sóbria que atravessa
o peso instável da oscilação.
Um nome breve, quase silêncio,
para um gesto de permanência,
um esforço íntimo, denso,
de não me perder na ausência.
Lítio sustenta o chão que vacila,
quando o pensamento quer correr,
e quando o mundo em mim se aniquila,
faz o ar pesado permanecer.
Não me tira o sentir profundo,
nem apaga o que em mim sou,
apenas segura, por um segundo,
minha mão quando tudo desmoronou.
Ainda sinto com intensidade,
ainda mergulho sem previsão,
mas há agora outra possibilidade,
um espaço entre impulso e decisão.
Existe margem, existe fresta,
um tempo antes de despencar,
uma pausa que ainda resta
antes do abismo me chamar.
Lítio não é fim do caos vivido,
é o limite que posso habitar,
é o ponto onde, contido,
paro, respiro e escolho ficar.
Ficar viva nos dias comuns,
nos dias densos de existir,
nos dias em que alguns
gestos já são resistir.
E sigo, mesmo incompleta,
sem a ilusão de solução,
não inteira, mas desperta,
ainda aqui, em continuação.
Luany de Macedo Nascimento
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