Fui, um dia, quase toda promessa em construção,
uma jovem entregue aos cantos doces da ilusão,
confundia delicadeza com alguma redenção,
e chamava de amor o que só vestia sedução.
Havia em mim uma esperança quase desmedida,
não por falta de ver, mas por excesso de querer,
era um brilho insistente sustentando a vida,
acreditando que o mundo saberia acolher.
Mas o mundo ensina com mãos duras e sem aviso,
e não há canto suave que impeça o naufragar,
há palavras que embalam como um falso paraíso,
preparando, em silêncio, o momento de afundar.
Entre quedas e reergueres, refiz meu próprio chão,
deixei de ser só sonho solto ao vento e indeciso,
hoje escolho caminhos com firmeza e direção,
não me guio por promessas, mas por aquilo que piso.
Sou mulher de chão firme, de presença e criação,
mãe que gera no corpo e sustenta com o olhar,
protejo enquanto ensino o voo e a expansão,
pois amar também é permitir que o outro vá.
Sou esposa por escolha, nunca por submissão,
é encontro que resiste no cotidiano vivido,
caminhar lado a lado sem perder a própria mão,
sem calar minha voz nem diluir meu sentido.
Sou pedagoga porque insisto na transformação,
acredito na sala, no gesto e no dizer,
ensinar nunca foi neutro, é tomada de posição,
é compromisso com o mundo que se quer fazer.
Sou ateia porque assumo o peso do existir,
não delego ao invisível o que é humano e concreto,
minha ética se constrói no agir e no decidir,
na responsabilidade que sustenta o afeto.
Feminista porque meu corpo não pede permissão,
minha vida não se curva a normas que querem conter,
não romantizo correntes travestidas de iluminação,
recuso toda mística que impeça de ver.
Antifascista porque conheço a dor da opressão,
porque leio na história o que o poder quer calar,
sei o preço que pagam os corpos em dissidência e tensão,
quando a violência insiste em se legitimar.
Leio o mundo nas tramas da materialidade,
nas relações de classe que moldam o viver,
não aceito destino como nome da desigualdade,
pois sei que há estruturas que insistem em manter.
Estou situada, porque neutralidade é ficção,
quem diz não ter lado já escolheu onde ficar,
há silêncio que serve à manutenção,
e há palavra que nasce para desestabilizar.
A travessia arrancou de mim o véu da ilusão,
mas não levou a delicadeza de sentir,
perdi encantos fáceis, ganhei elaboração,
aprendi com o coletivo outras formas de existir.
Não sou mais a jovem que acreditava sem ver,
sou a mulher que analisa antes de decidir,
feita de afeto crítico, de coragem para dizer,
de cuidado que luta e não teme resistir.
Sou tudo isso em movimento e contradição,
na história que escrevo enquanto sigo a viver,
recuso ser menor do que minha condição,
e escolho, a cada passo, quem desejo ser.
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