Fui, um dia, quase só promessa.
Uma jovem que acreditava em cantos de sereia,
que confundia doçura com verdade
e chamava de amor tudo aquilo que falava bonito.
Havia em mim certa inocência,
não como falta de inteligência,
mas como excesso de esperança.
O mundo, então, foi se encarregando de me ensinar
com a rudeza que só a experiência conhece.
Aprendi que nem toda voz suave salva,
que há discursos que embalam para melhor afogar.
E foi assim, entre quedas e reerguimentos,
que deixei de ser apenas quem sonhava
para me tornar quem escolhe.
Hoje, sou mulher de chão firme.
Mãe, corpo que gera, braços que sustentam,
olhar que protege e, ao mesmo tempo, liberta.
Esposa, não por submissão,
mas por encontro, parceria, decisão cotidiana
de caminhar junto sem apagar quem sou.
Sou pedagoga porque acredito
que o mundo se transforma na sala de aula,
no gesto, na palavra, no silêncio que escuta.
Ensinar, para mim, nunca foi neutralidade:
é posição, é escolha, é compromisso histórico.
Sou atéia porque não delego à fé
aquilo que cabe à responsabilidade humana.
Feminista porque meu corpo e minha vida
não pedem permissão para existir.
Anti jovem místico porque não romantizo
a alienação vestida de espiritualidade rasa.
Anti fascista porque sei, na pele e na leitura,
o que a violência do poder faz com os corpos dissidentes.
Eu leio o mundo pelas condições concretas,
pelas relações de classe,
pelas estruturas que produzem desigualdades
e insistem em chamá-las de destino.
Politicamente situada,
porque quem diz não ter lado
geralmente já escolheu o lado da manutenção.
A travessia me tirou o véu,
mas não me roubou a sensibilidade.
Perdi ilusões, ganhei lucidez.
Troquei encantamentos fáceis
por compreensões construídas a muitas mãos,
em diálogo, em luta, em reflexão.
Não sou mais a jovem que se deixava seduzir
por promessas sem lastro.
Sou a mulher que olha, analisa, decide.
Feita de afeto e de crítica,
de cuidado e de enfrentamento.
Sou tudo isso
e sigo sendo.
Porque me constituo no movimento,
na história,
na recusa de ser menos
do que posso e escolho ser.
Luany de Macedo Nascimento 07/01/2026

0 comentários:
Postar um comentário