Durante as férias que me dei, após conclusão de curso e próximo passo em direção da pós graduação... Estou a reassistir Dexter e é, inevitavelmente, revisitar uma pergunta incômoda: o que define o bem e o mal quando quem mata afirma seguir um código moral? Dexter Morgan não é apenas um serial killer ficcional; ele é uma construção narrativa que tensiona diferentes tradições éticas e nos obriga a confrontar os limites da moralidade.

Dexter se apresenta como alguém “vazio”, guiado por um “passageiro sombrio”. No entanto, ao longo da série, vemos afeto, vínculos, escolhas e até conflitos internos, elementos que desafiam a leitura simplista de psicopatia. Ele não mata indiscriminadamente: ele seleciona. Ele justifica. Ele segue um código aprendido com Harry. E é justamente aí que a discussão ética se abre.

A ética utilitarista, associada a Jeremy Bentham e John Stuart Mill, defende que uma ação é moralmente correta se alcança a felicidade para o maior número de pessoas.

Sob essa ótica, Dexter poderia ser visto como um agente de “justiça paralela”: ele elimina criminosos que escaparam do sistema, potencialmente salvando vidas futuras. Há um cálculo implícito: uma morte (culpado) para evitar muitas outras (inocentes).

Mas essa lógica é perigosa. O utilitarismo, quando radicalizado, pode justificar atrocidades em nome de um suposto bem coletivo. Dexter decide sozinho quem merece viver ou morrer e isso já revela um problema ético profundo: quem lhe deu esse poder?

Conforme Maquiavel e sua ética consequencialista, que aceita em certos contextos, ações moralmente questionáveis podem ser justificadas se levarem a um resultado desejável.

Dexter encarna essa lógica de forma quase exemplar. Ele mente, manipula, encobre crimes, tudo para manter sua “missão”. O código de Harry funciona como uma racionalização: não importa o método, desde que o alvo seja “merecedor”.

Aqui, Dexter não é um herói, é um estrategista moral. Ele opera fora da lei, mas com uma lógica interna coerente. O problema é que, nesse modelo, a moral é exclusivamente instrumental.

A ética humanista valoriza a dignidade humana, a empatia e o reconhecimento do outro como sujeito. Nessa perspectiva, toda vida possui valor intrínseco. É aqui que Dexter mais falha.

Mesmo que suas vítimas sejam criminosas, ele as reduz a objetos de sua necessidade. Ele não as reconhece como sujeitos passíveis de mudança, arrependimento ou complexidade. Há uma desumanização, ainda que seletiva.

Por outro lado, a série tensiona isso ao mostrar que Dexter aprende a sentir, especialmente em suas relações com Rita, Debra e Harrison. Isso sugere que ele não é totalmente incapaz de humanidade,  apenas fragmentado.

A ética de Kant é talvez a mais incompatível com Dexter. Para Kant, a moral deve ser guiada por princípios universais, o imperativo categórico: devemos agir de tal modo, que nossas ações possam ser consideradas universais.  Dexter faz exatamente o oposto.

Ele transforma suas vítimas em meios para satisfazer seu impulso e sua ideia de justiça. Mesmo que siga um “código”, esse código não é universalizável não pode ser aplicado a todos sem colapsar a própria ideia de moral.

Sob a lente kantiana, portanto, Dexter não é um herói trágico: ele é moralmente indefensável.

Ao chegar ao final de Dexter, não se trata apenas de encerrar a trajetória de um personagem, mas de confrontar tudo aquilo que foi construído ao longo da narrativa: uma ética particular, cuidadosamente elaborada, que em vários momentos nos seduz, nos convence e, talvez de forma mais inquietante, nos faz concordar. Olhar para esse desfecho com mais atenção, com um olhar crítico, é perceber que a série nunca foi sobre justificar Dexter, mas sobre tensionar o próprio conceito de justiça que carregamos. Ao longo dos episódios, fomos levados a aceitar a lógica de que existem vidas descartáveis, de que há sujeitos que ultrapassaram qualquer possibilidade de redenção e, portanto, poderiam ser eliminados. E o mais perturbador não é que Dexter pense assim, mas que, em muitos momentos, nós também pensamos.

O final expõe as fissuras dessa construção. Ele revela que não há código capaz de conter completamente a violência, que não existe racionalidade que domestique o impulso sem deixar rastros de destruição ao redor. As relações que Dexter constrói, os afetos que ele insiste em negar e, ao mesmo tempo, não consegue evitar, mostram que ele nunca foi apenas um “monstro controlado”. Há humanidade ali fragmentada, contraditória, muitas vezes silenciada, mas suficiente para tornar tudo mais complexo. Porque, se há humanidade, há escolha. E se há escolha, há responsabilidade.

É nesse ponto que a série se torna profundamente incômoda. Ela nos obriga a reconhecer que a linha entre justiça e vingança é mais tênue do que gostaríamos de admitir. Que o discurso de “fazer o que precisa ser feito” pode facilmente escorregar para uma lógica em que qualquer meio se torna justificável. E que, quando abrimos essa brecha, já não estamos tão distantes daquilo que julgávamos condenar. Dexter não é apenas um indivíduo fora da norma; ele é, em certa medida, um espelho distorcido de uma sociedade que, por vezes, também deseja punições rápidas, definitivas e silenciosas.

Assim, o final não fecha a história, ele a desestabiliza. Ele retira qualquer conforto moral que ainda pudesse restar e nos devolve a responsabilidade de pensar. Pensar sobre o valor da vida, sobre os limites da justiça, sobre o perigo de naturalizar a violência quando ela parece estar “a nosso favor”. Para quem se permite olhar mais de perto, Dexter deixa de ser apenas uma série sobre um assassino e se transforma em uma provocação ética contínua, que permanece mesmo depois do último episódio: afinal, o que, de fato, nos autoriza a decidir quem merece viver ou morrer? E o que isso revela sobre nós?

 Há algo em mim que nunca aprendeu a se curvar. Não foi uma decisão repentina, nem um rompimento tardio. Foi mais como uma consciência que sempre esteve ali, mesmo quando eu ainda não tinha todas as palavras para nomeá-la. Desde cedo, eu já sentia que o lugar que tentavam desenhar para mim era estreito demais. Havia uma inadequação silenciosa, uma recusa quase instintiva em aceitar que meu existir precisasse caber em limites tão bem definidos por outros.

Enquanto muitas vozes diziam o que uma mulher deveria ser, eu já me colocava em deslocamento. Não por rebeldia vazia, mas por uma espécie de lucidez precoce. Eu não me reconhecia na submissão, não me via na renúncia como destino, nem na ideia de que minha vida precisaria girar em torno de expectativas alheias. Havia em mim um entendimento, ainda que em formação, de que ser mulher não poderia significar ser menos.

Com o tempo, essa percepção não apenas permaneceu, ela se aprofundou. Ganhou corpo, linguagem, consciência. Eu fui compreendendo que aquilo que eu recusava não era individual, mas estrutural. Que as tentativas de me moldar não eram acidentais, mas parte de algo maior, de um sistema que organiza lugares, define vozes e distribui silêncios.

Mas eu nunca me encontrei nesses silêncios.

Minha existência sempre foi uma afirmação, mesmo quando não era dita em voz alta. Uma afirmação de que eu posso ser, pensar, escolher, ocupar, sem precisar me justificar. Não houve um momento de ruptura porque nunca houve, de fato, adesão. O que existiu foi um caminho de fortalecimento, de compreensão mais profunda daquilo que, de algum modo, eu já intuía.

E isso não significa que o mundo tenha sido simples. Pelo contrário. Significa que, muitas vezes, eu precisei sustentar minha posição em meio a olhares que estranham, discursos que tentam diminuir, estruturas que insistem em delimitar. Mas há algo que me atravessa e permanece: eu não negocio a minha existência.

Ser feminista, para mim, não é apenas uma posição política, é uma forma de estar no mundo. É a maneira como eu me reconheço, como me coloco, como me relaciono com o que me cerca. Não se trata apenas de recusar o que oprime, mas de afirmar, todos os dias, a legitimidade da minha voz, do meu corpo, das minhas escolhas.

Eu não luto para me tornar algo que me foi negado. Eu luto para continuar sendo aquilo que nunca me permiti deixar de ser.

E, nesse movimento, eu não estou só. Há outras mulheres, outras histórias, outras vozes que não se dobraram, que também sustentam suas existências com firmeza. Há uma força que não começa em mim, mas que também não passa por mim sem deixar marcas. Uma força que se reconhece, que se amplia, que resiste.

No fim, não se trata de confronto constante, embora ele exista. Trata-se, sobretudo, de permanência.

Eu permaneço inteira.