Há algo em mim que nunca aprendeu a se curvar. Não foi uma decisão repentina, nem um rompimento tardio. Foi mais como uma consciência que sempre esteve ali, mesmo quando eu ainda não tinha todas as palavras para nomeá-la. Desde cedo, eu já sentia que o lugar que tentavam desenhar para mim era estreito demais. Havia uma inadequação silenciosa, uma recusa quase instintiva em aceitar que meu existir precisasse caber em limites tão bem definidos por outros.

Enquanto muitas vozes diziam o que uma mulher deveria ser, eu já me colocava em deslocamento. Não por rebeldia vazia, mas por uma espécie de lucidez precoce. Eu não me reconhecia na submissão, não me via na renúncia como destino, nem na ideia de que minha vida precisaria girar em torno de expectativas alheias. Havia em mim um entendimento, ainda que em formação, de que ser mulher não poderia significar ser menos.

Com o tempo, essa percepção não apenas permaneceu, ela se aprofundou. Ganhou corpo, linguagem, consciência. Eu fui compreendendo que aquilo que eu recusava não era individual, mas estrutural. Que as tentativas de me moldar não eram acidentais, mas parte de algo maior, de um sistema que organiza lugares, define vozes e distribui silêncios.

Mas eu nunca me encontrei nesses silêncios.

Minha existência sempre foi uma afirmação, mesmo quando não era dita em voz alta. Uma afirmação de que eu posso ser, pensar, escolher, ocupar, sem precisar me justificar. Não houve um momento de ruptura porque nunca houve, de fato, adesão. O que existiu foi um caminho de fortalecimento, de compreensão mais profunda daquilo que, de algum modo, eu já intuía.

E isso não significa que o mundo tenha sido simples. Pelo contrário. Significa que, muitas vezes, eu precisei sustentar minha posição em meio a olhares que estranham, discursos que tentam diminuir, estruturas que insistem em delimitar. Mas há algo que me atravessa e permanece: eu não negocio a minha existência.

Ser feminista, para mim, não é apenas uma posição política, é uma forma de estar no mundo. É a maneira como eu me reconheço, como me coloco, como me relaciono com o que me cerca. Não se trata apenas de recusar o que oprime, mas de afirmar, todos os dias, a legitimidade da minha voz, do meu corpo, das minhas escolhas.

Eu não luto para me tornar algo que me foi negado. Eu luto para continuar sendo aquilo que nunca me permiti deixar de ser.

E, nesse movimento, eu não estou só. Há outras mulheres, outras histórias, outras vozes que não se dobraram, que também sustentam suas existências com firmeza. Há uma força que não começa em mim, mas que também não passa por mim sem deixar marcas. Uma força que se reconhece, que se amplia, que resiste.

No fim, não se trata de confronto constante, embora ele exista. Trata-se, sobretudo, de permanência.

Eu permaneço inteira.

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