O tempo não passa. Ele me atravessa. Sinto como se ele escorresse por dentro de mim, como uma presença que não se vê, mas que altera tudo o que toca. Às vezes é leve, quase imperceptível, como um sopro que apenas desloca o ar ao redor. Outras vezes, pesa. Se acumula nos ombros, nos olhos, na forma como eu lembro e naquilo que já não consigo mais esquecer. E sigo, com essa estranha sensação de que estou sempre um pouco atrasada para a minha própria vida.
Há dias em que acordo acreditando que tudo ainda está por acontecer. Como se existisse um momento exato em que tudo finalmente faria sentido. Nesses dias, caminho com uma espécie de esperança silenciosa, como quem aguarda algo sem saber exatamente o quê. Mas então o tempo se move, e o que parecia "promessa" começa a se dissolver.
As certezas perdem contorno. Os planos deixam de parecer tão firmes. E eu percebo que muitas das coisas que eu jurava que seriam para sempre já não cabem mais em mim. É como se eu tivesse sido feita de versões que vão ficando pelo caminho, pedaços de uma identidade que já não me define, mas que ainda ecoa em algum lugar dentro de mim.
Eu olho para trás e não vejo uma linha contínua. Vejo fragmentos. Momentos intensos que perderam a nitidez, escolhas que já não sei explicar, sentimentos que um dia foram absolutos e hoje parecem distantes, quase pertencentes a outra pessoa. E ainda assim, fui eu. Inteiramente eu. Existe uma estranha beleza nisso.
A ideia de que eu nunca fui fixa, nunca fui definitiva. De que estou sempre em processo, sempre me tornando algo que ainda não sei nomear. Mas junto com essa beleza, existe também um certo desconforto. Uma inquietação que não me abandona, como se eu estivesse constantemente me reconstruindo sem nunca chegar a uma forma final. E talvez não exista forma final.
Talvez a vida não seja sobre alcançar um estado de plenitude, mas sobre sustentar esse movimento contínuo entre o que fui, o que sou e o que ainda posso ser. Talvez o tempo não esteja me levando a algum lugar específico, mas apenas me transformando, camada por camada, até que eu já não reconheça completamente o início de mim.
Há momentos em que tudo desacelera. E nesses instantes raros, eu sinto uma espécie de presença absoluta. Como se o agora se expandisse e ocupasse todo o espaço possível. Não há passado me puxando nem futuro me exigindo. Só esse instante, denso e silencioso, onde eu existo sem precisar justificar nada. E é curioso como esses momentos, tão pequenos, parecem conter mais verdade do que todos os grandes planos que já fiz. Mas eles passam.
E eu volto a esse fluxo inquieto, a essa sensação de que estou sempre tentando alcançar algo que se move junto comigo. É como correr atrás do próprio reflexo. Quanto mais eu avanço, mais se afasta, e ainda assim, eu continuo correndo.
Há em mim uma vontade quase ingênua de permanência. De fazer com que certas coisas durem mais do que deveriam. Pessoas, sentimentos, versões de mim mesma. Eu me apego como quem tenta desafiar o inevitável, como se o tempo pudesse, por um instante, hesitar diante do meu desejo. Mas ele não hesita.
E talvez seja justamente isso que o torna tão verdadeiro. O fato de que ele não se dobra, não negocia, não se explica. Ele apenas segue, indiferente às minhas tentativas de retenção, às minhas pausas internas, aos meus silêncios carregados de significado. E então eu começo a perceber que não sou apenas alguém que vive no tempo, eu sou também aquilo que sente o tempo.
Sou o lugar onde ele deixa marcas, onde ele se transforma em memória, em saudade, em aprendizado. Sou o espaço onde o instante deixa de ser apenas um ponto e se torna experiência. E isso me desloca. Porque, se o tempo me atravessa, eu também o modifico ao senti-lo. Talvez seja isso. Não deter o tempo, mas dar a ele uma forma íntima. Transformar o que passa em algo que permanece de outro modo. Não como matéria, não como presença concreta, mas como sentido. Como aquilo que, mesmo depois de ter ido embora, ainda continua habitando em mim.
Mas há também um outro chamado, mais silencioso do que todos os outros. Uma espécie de convite quase esquecido: o de viver com intenção. De não deixar que os dias se acumulem apenas como tarefas cumpridas, mas como algo realmente vivido. De recusar, mesmo que discretamente, essa vida automática que se constrói sem que a gente perceba.
Porque existe um risco quase invisível em se acostumar. Em aceitar o ritmo imposto, em adiar a vida para depois, em preencher os dias com o que é esperado, mas não necessariamente sentido. E quando se percebe, já não se sabe exatamente quando foi que se começou a apenas passar pelos dias em vez de habitá-los.
Talvez por isso exista essa necessidade de simplificar por dentro. De escutar com mais atenção o que ainda pulsa, o que ainda insiste, o que ainda pede espaço. Não para fugir do mundo, mas para não se perder completamente nele. Para que a vida não se torne apenas uma sequência de obrigações bem executadas, mas uma experiência que, de fato, nos atravessa de volta.
Eu sigo com minhas dúvidas que nunca cessam completamente. Com minhas certezas frágeis que insistem em surgir. Com essa vontade quase teimosa de fazer da minha existência algo que não seja apenas passagem. Algo que, mesmo sendo transitório, tenha peso, tenha profundidade, tenha verdade.
Porque no fundo, o que me inquieta não é o fato de o tempo passar. É a possibilidade de eu passar por ele sem realmente ter estado aqui. E isso me visita como um pressentimento. Não como um medo imediato, mas como uma ideia silenciosa que cresce nos cantos da consciência. A imagem de um fim onde tudo se aquieta, onde as perguntas cessam não porque foram respondidas, mas porque já não há mais tempo para fazê-las. E nesse possível fim, o que me assombra não é o vazio, nem a ausência, mas uma constatação tardia e irreversível: a de ter atravessado os dias sem ter realmente vivido.
De ter me ocupado tanto em alcançar, em corresponder, em esperar o momento certo, que deixei escapar o único tempo que existia, aquele que acontecia enquanto eu adiava. De ter confundido intensidade com pressa, sentido com expectativa, vida com preparação. E então compreendo que o perigo nunca foi o tempo acabar, o perigo sempre foi eu não ter acontecido dentro dele. Por isso, agora, ainda aqui, ainda em movimento, eu tento.
Não mais segurar o tempo, mas habitá-lo. Não mais esperar por um instante ideal, mas reconhecer o que pulsa neste exato momento. Porque talvez viver não seja encontrar um grande sentido final, mas impedir que, no último instante, reste apenas o silêncio de quem percebe, tarde demais, que passou pela vida como quem apenas assistiu. E eu não quero apenas assistir! Eu quero, mesmo que imperfeitamente, ter estado aqui.
Luany de Macedo Nascimento
0 comments:
Postar um comentário