Há um silêncio anterior a qualquer certeza. Não um silêncio vazio, mas um espaço aberto onde nada foi decidido por nós. O mundo não nos espera com respostas, nem nos acolhe com um sentido já traçado. Nós simplesmente surgimos, lançados nessa abertura, sem essência pronta, sem destino assegurado. E, ainda assim, somos convocados a viver.

Não há uma consciência superior que nos tenha pensado antes de existirmos. A ausência de Deus não é apenas uma ideia, é uma condição. Significa que não fomos projetados, que não há um molde a ser preenchido, nenhuma natureza fixa a ser descoberta. Aquilo que somos não está escondido em algum lugar, aguardando revelação. Está por ser feito. E é nesse fazer que a existência se desenrola.

Mas viver não é um gesto neutro. A cada instante, mesmo no mais cotidiano dos atos, escolhemos algo.  Escolhemos falar ou calar, permanecer ou partir, aceitar ou recusar. E não há como escapar disso. Até a recusa em escolher já é, por si só, uma escolha. Há uma liberdade silenciosa que nos atravessa? Uma liberdade que não pede permissão e não oferece descanso?

Se há, essa liberdade pesa. Não como um fardo imposto de fora, mas como algo que brota de dentro. Porque ao escolher, não traçamos apenas um caminho pessoal. Há algo mais amplo que se inscreve em cada gesto, como se disséssemos, ainda que sem palavras, que aquele modo de agir poderia valer para qualquer um. Nossas escolhas ultrapassam o instante e tocam uma ideia de humanidade que estamos, inevitavelmente, ajudando a construir.

Talvez seja por isso que a angústia e a dor apareça. Não como fraqueza, mas como resultado concreto de nossas ações e escolhas. Ela nos lembra que não há garantias, que não existe um fundamento seguro onde possamos repousar. Não há valores prontos, nem princípios eternos que nos isentem de decidir. Tudo aquilo que orienta a vida precisa ser criado, sustentado, assumido, por nós e mais ninguém. 

E, no entanto, não estamos sozinhos nesse movimento. O outro está sempre presente, mesmo quando não o vemos. Seu olhar nos alcança, nos transforma, nos devolve uma imagem que não controlamos. Diante dele, deixamos de ser apenas aquilo que escolhemos ser e passamos a existir também como aquilo que somos para alguém. Há uma tensão delicada nesse encontro, um jogo entre afirmar-se e ser capturado pelo olhar alheio.

Ainda assim, é nesse entrelaçamento que o humano se faz. Não como essência, mas como relação, como construção contínua, como algo que nunca se completa. Não há reconciliação final, não há um momento em que tudo se estabiliza. Há apenas esse movimento incessante de tornar-se, de refazer-se, de existir para além do que já se é.

Viver talvez seja isso. Habitar essa liberdade sem negá-la, sustentar a angústia sem fugir dela, encontrar no vazio não um abismo que paralisa, mas um espaço onde algo pode nascer. Não um sentido dado, mas um sentido criado, frágil e provisório, como tudo aquilo que é verdadeiramente humano. Demasiadamente humano. 

No fim, não somos aquilo que nos disseram que seríamos, nem aquilo que esperamos nos tornar um dia. Somos esse movimento inquieto entre o que já fizemos de nós e aquilo que ainda insistimos em ser. E, nesse intervalo, existe algo raro, quase imperceptível, mas profundamente nosso: a possibilidade de existir com consciência de que somos, ao mesmo tempo, ausência de fundamento e potência de criação.

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