No âmago obscuro onde a consciência sangra,
Ergue-se um réquiem frio de razão que se desfaz;
Sou átomo errante em lógica que se desmancha,
Um ser que pensa e, ao pensar, perece mais.

No crânio, um templo em ruínas ecoa ideias mortas,
Sinapses são espectros em lúgubre procissão;
A mente, outrora altiva, hoje jaz entrecortada
Por lâminas sutis da própria reflexão.

Oh! Funesta lucidez que a mim se entranha e cresce,
Como um verme a devorar o néctar do ideal;
Pois quanto mais concebo a essência que me tece,
Mais sinto o peso atroz de um vácuo universal.

A vida, este fenômeno de química impassível,
É um cálculo imperfeito em fórmula sem calor;
E o eu, nesta equação de término previsível,
Não passa de um desvio entre a dor e o torpor.

Carrego em cada nervo a falência do sentido,
E em cada pulsação, o anúncio do final;
Pensar tornou-se um fardo lento, apodrecido,
Que nutre a morbidez de um ser racional.

Oh, consciência! Cárcere austero e sem clemência,
Que faz da própria luz um ácido a corroer!
Se a ignorância é paz, por que me deste a consciência 
Que apenas me ensina, em lúcido sofrer?

Assim, prossigo inerte, em lúgubre vigília,
Entre o nada que fui e o nada a que hei de ir;
Sou ruína que raciocina e, em tal agonia fria,
Aprende, pouco a pouco, a arte de não existir.

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