Há momentos em que me sinto como alguém caminhando por corredores vazios dentro de si mesma. Não é exatamente tristeza. A tristeza ainda possui objeto, direção, motivo. O vazio é diferente: ele não aponta para nada. É uma espécie de ausência sem nome, um espaço interno onde as coisas perdem o peso e o significado antes mesmo de serem plenamente vividas.
Às vezes acordo e tudo parece funcionar normalmente. O mundo continua em movimento: os ônibus passam, as pessoas conversam, as notificações chegam, o café esfria sobre a mesa. Mas existe algo estranho em participar da realidade quando, por dentro, sinto como se estivesse apenas atravessando os dias mecanicamente. Como se eu observasse minha própria vida de longe, sem conseguir habitá-la completamente.
Passei muito tempo acreditando que esse vazio surgia da falta de alguma coisa específica. Pensei que talvez fosse solidão, medo, ausência de reconhecimento, carência afetiva ou cansaço. Mas mesmo nos momentos em que obtive aquilo que desejava, a sensação permanecia. Ela apenas mudava de forma. Era como encher um recipiente rachado: por alguns instantes parecia completo, até que tudo começava a escapar outra vez.
Penso que talvez o problema esteja no próprio desejo. Desejo é movimento; nunca repouso. Quando quero algo, projeto naquela coisa a promessa de uma plenitude futura. Imagino que, ao alcançá-la, finalmente descansarei. Mas assim que a conquista chega, ela envelhece rapidamente dentro de mim. O que ontem parecia essencial torna-se comum. E então nasce uma nova falta. Vivo cercada por pequenas esperanças que morrem logo depois de realizadas.
Existe uma exaustão profunda em perceber isso. Porque o mundo inteiro parece construído sobre a ideia de preenchimento: consumir mais, conquistar mais, amar mais, produzir mais, tornar-se mais. Como se houvesse um ponto de chegada onde finalmente seria possível silenciar essa inquietação interior. Mas começo a suspeitar que esse lugar não existe.
O mais angustiante não é sofrer; é perceber a repetição. Os dias se acumulam, os desejos se renovam, as pessoas entram e saem da nossa vida, e ainda assim algo permanece intocado dentro de nós. Um núcleo silencioso que nada alcança completamente. Há noites em que me pergunto se toda existência humana não passa de uma tentativa contínua de distrair-se desse vazio fundamental.
Talvez por isso o silêncio assuste tanto. Quando todas as distrações cessam (quando desligo a música, afasto o celular, interrompo as conversas) resta apenas minha própria consciência diante de si mesma. E nem sempre gosto do que encontro ali. Existe algo perturbador em encarar a própria existência sem anestesias. Perceber que muitos dos nossos movimentos diários talvez sejam apenas maneiras de não pensar profundamente sobre o fato de estarmos aqui, vivos, sem respostas definitivas.
Ainda assim, continuo procurando pequenas coisas que suspendem temporariamente essa sensação. Uma frase bonita num livro. O vento frio entrando pela janela. O instante raro de uma conversa verdadeira. O abraço inesperado de alguém que nos faz sentir menos estrangeiros no mundo. São momentos breves, frágeis, quase insignificantes diante da vastidão da existência, mas talvez seja justamente disso que a vida seja feita: interrupções momentâneas do vazio.
Não acredito mais na ideia de completude. Talvez ninguém seja inteiro. Talvez existir seja aprender a conviver com essa falta permanente sem transformá-la necessariamente em desespero. O vazio não desaparece; ele apenas muda de intensidade. E eu sigo vivendo não porque encontrei todas as respostas, mas porque, apesar da ausência delas, ainda existe algo em mim que insiste em continuar olhando o mundo, mesmo quando ele parece incompleto.
0 comments:
Postar um comentário