4
de

Quando sou vencida pela a imaginação, meus lábios dizem teu nome.
Sinto acelerar meu coração, em um silêncio que nunca morre.  (Luany de Macedo, Janeiro de 2008.)


Estou aqui, cercada por quatro paredes lilás. A janela ao meu lado permite que os primeiros raios de sol invadam este espaço, mas nem eles conseguem aquecer a frieza que me consome. Meus olhos ardem, resultado de mais uma noite em claro, perdida entre pensamentos que se repetem e me corroem. Um cinzeiro ao meu lado guarda vestígios de cigarro, lembranças de um vício que não sei mais se é fuga ou consolo. Uma xícara de café permanece intacta, abandonada, como tudo ao meu redor, o café ainda quente, mas não posso tocá-lo, não tenho forças para me dar esse pequeno prazer. Algumas folhas estão espalhadas, rabiscadas, como se a caneta fosse minha única forma de tentar escapar, mas as palavras não fazem mais sentido. A música já parou de tocar há horas, e o silêncio se tornou mais pesado que qualquer melodia. O único som que preenche o espaço agora é o da caneta deslizando sobre o papel, rabiscando um desespero que só eu entendo.

Vivo em um turbilhão de sentimentos e emoções que jamais pensei que experimentaria, um vazio que me consome por dentro, sem explicação. Não sei como tudo começou, não sei onde errei, mas sinto que estou presa em um ciclo insuportável, que não me deixa respirar. Se eu pudesse voltar atrás e corrigir cada erro, cada escolha torta, talvez tudo fosse diferente... Mas não há volta. Tudo que resta é este baú de velharias onde estou trancada, onde nada muda, nada se transforma, e tudo se repete, dia após dia, como uma condenação silenciosa.

Olho-me no espelho, e o que vejo não é um rosto, é o reflexo de algo que já se perdeu. Um corpo que começa a se desintegrar, com olhos vazios e um sorriso que não é sorriso, mas uma sombra do que um dia foi. Sinto-me como um espectro, uma alma errante, uma zumbi que já não tem vida. O sol não me aquece, as cores não me tocam, as flores não me encantam mais. Sinto o fim se aproximando, não de forma abrupta, mas como um espectro suave, sutil, cada vez mais perto, como uma sombra que se alonga ao final do dia.

Eu só quero ficar sozinha, profundamente só. Não essa solidão que me acompanha com uma companhia invisível, mas a solidão verdadeira, aquela que me liberta, que me dissolve de tudo o que ainda tenta me prender aqui. Mesmo cercada de gente, me sinto infinitamente sozinha. Há uma presença, mas é uma presença sem vida, sem alma. Uma companhia fictícia, que existe apenas para me lembrar do que perdi, do que nunca tive. A solidão se torna mais amarga quando é vivida ao lado de pessoas que não podem me entender. É o vazio de estar rodeada e, ainda assim, ser completamente invisível.




"Odeio quem me rouba a solidão sem me oferecer a verdadeira companhia" (Friedrich Nietzsche)

29
de

Quem sou? Mas até onde tu sabes de ser? Eu, nada sei de ser, além do pó e das cinzas que um dia serei. E que em outro tempo tornaram-me quem sou, quem fui... Sou a transitoriedade que o tempo me dá, sou um fio de instante perdido no meio do temporal da eternidade. Difícil dizer quem sou se há em mim vários personagens. Mas isso não quer dizer, que cada um não seja um pequeno pedaço de minha alma.
Sou o oposto dos meus sonhos, sou o oposto das metáforas, sou o oposto do ponto de partida e tão pouco sou a linha de chegada. Sou o oposto do oposto! Perdida e partida num verso reverso. Sou meus desejos não realizados.
Passei até o presente momento da minha vida, marcando encontros furtivos com a felicidade. Quando ela finalmente me assalta, percebo que não tenho nenhuma moeda para dá em troca. Por isso hoje, mendigo à sorte.

Sou a sobra do que fui, sou uma simples sombra, um simples suspiro! Sou tudo o que me resta da eterna falta que sobra em mim!

4
de

Às vezes busco refúgio na escrita,
tentando aliviar o peso que sinto.
Mas são tantas vozes dentro de mim,
que me perco entre as palavras e o infinito

Na companhia de um café,
Para esquentar-me nessa tarde fria,
Encontro na escrita um abrigo,
um jeito de ainda sentir-me viva!

És ainda toda a força que tenho,
O meu riso inocente,
A melhor e pior parte em mim existente,
Um laço eterno, puro e envolvente
.

Quando, por fim, da vida me despedir,
Guarda-te contigo uma doce lembrança,
Na morte, estará eu ainda te amando
E a velar noite e dia teu sublime sono.

20
de

Escrevo em uma tarde solitária, como todas as outras. Escrevo para conversar com meu próprio silêncio, para tentar dar nome ao caos que se espalha dentro de mim. Escrevo para espantar os fantasmas que insistem em sussurrar quando tudo ao meu redor se cala. É a única forma que tenho de me sentir viva, ainda que por instantes, antes de me afogar novamente. Preciso liberar essa carga invisível que pesa sobre meus ombros, preciso transformar meu desespero em palavras, porque, se não o fizer, temo enlouquecer.

Cada palavra rabiscada é um vestígio de algo que já fui ou de algo que nunca serei. Preciso registrar minhas angústias e felicidades, antes que se apaguem e se tornem apenas sombras sem forma. Meus amores, minhas ilusões, minhas tristezas e alegrias — tudo sempre tão narrado, como se o papel fosse o único confidente que nunca me abandona. Será que escrevo porque não tenho com quem conversar além das quatro paredes do meu quarto? Ou será que minha voz se tornou tão abafada que ninguém mais consegue ouvi-la?

Ando fraca. A cabeça perdida, sem um lugar seguro onde repousar. Busco paz para minha mente, mas quanto mais procuro, mais distante ela parece. O cansaço me pesa nos ossos, a exaustão me prende em um ciclo interminável. Talvez eu não seja uma boa companhia para ninguém — nem mesmo para mim. Se ao estar só me sinto entediada, angustiada, perdida, isso apenas prova o que sempre temi: sou minha melhor e minha pior companhia.

Percebo que estou perdendo o gosto pelas coisas, como se as cores do mundo desbotassem diante dos meus olhos. Fico presa em lembranças que não aquecem, apenas doem. Nostálgica, apática, e até mesmo misantrópica, evito o contato, recuo antes de qualquer aproximação. A batalha dentro de mim é incessante, e a cada dia me vejo mais frágil diante da guerra que travo com minha própria mente. Minhas noites se tornam cada vez mais longas, insuportáveis, enquanto a cidade dorme e eu permaneço desperta, debatendo-me entre medos e anseios que se multiplicam no escuro.

Perco-me dentro dos labirintos da minha própria mente, cercada de pensamentos que me assombram e me puxam para longe do que já fui. A cada dia, sinto que vou deixando para trás partes de mim, pedaços que nunca mais reencontrarei. Sou consumida constantemente pelos mesmos fantasmas que me acompanham sem descanso, do amanhecer ao anoitecer. E nesta cidade fria, onde caminho sozinha, continuo vagando sem rumo, sempre.

.

" Eu respiro tentando encher os pulmões de vida, mas ainda é difícil deixar qualquer luz entrar... Ainda sinto por dentro toda dor dessa ferida, mas o pior é pensar que isso um dia vai cicatrizar... Eu queria manter cada corte em carne viva, a minha dor em eterna exposição. "

11
de

Em uma noite de pura dor e agonia,
Mais uma noite igual a tantas outras...
Rasgando minha pele, como quem rasga um papel,
Definhando meu corpo, como quem se despede da vida.

Essa estranha sensação de não mais existir,
De ser sugada, minuto após minuto,
Um vulto sem peso, sem forma,
Presa entre o vazio e o esquecimento.

Oh vida, o que fazes comigo?
Que jogo cruel é esse que me entregas?
Uma promessa de luz que nunca amanhece,
Uma estrada sem rumo, sem fim, sem volta.

O tempo me observa, impassível,
E eu, cada vez menor, cada vez mais fraca,
Sinto que já não há chão sob meus pés,
A queda se tornou minha única certeza.

Vida, maldita ironia!
Carrega-me logo, leva-me para onde quiseres...
Ou liberta-me dessa espera sem sentido.
Hoje, só por hoje, desisto de caminhar.

5
de



Hoje é mais um dia. Apenas mais um...
Um céu nublado, café amargo,
a fumaça do cigarro que dança no ar.
E não há nada. Nada...

Hoje, o dia é cortante,
fere a cada segundo que passa.
Mais um passo até o fim,
mais um fim que nunca chega.

Hoje, é mais uma luta—
um duelo contra minha própria mente.
Promessas quebradas, um dia sangrento,
perguntas sem resposta ecoando no tempo.

Hoje, sou só eu.
Só eu e o silêncio,
só eu e o peso
de estar sozinha comigo mesma.

E amanhã? Será que existe?
Ou será apenas um eco do hoje,
um reflexo opaco do ontem,
um ciclo que nunca se rompe?

.

"Ando tão a flor da pele

minha vontade se confude com a vontade de não ser

Ando tão a flor da pele que minha pele tem o fogo do juízo final.

[...]

Às vezes me preservo noutras, suicido!"