Há em mim uma fúria antiga. Não é explosão breve, é incêndio lento, é magma contido sob a crosta da civilidade. Aprendi cedo a chamar de “calma” o que sempre foi repressão. Mas a fúria permanece, respira comigo, arde silenciosa enquanto o mundo exige compostura. Sou ateia. Não por rebeldia rasa, mas por lucidez dolorosa. Neguei os deuses porque eles sempre exigiram silêncio diante da injustiça, resignação diante da dor, docilidade diante do absurdo. Prometeram céu enquanto a vida ardia no inferno do agora. Não me ajoelho diante de ausências. Não consolo meu sofrimento com promessas vazias. Prefiro a verdade nua à mentira vestida de esperança. Viver dói porque se espera de mim serenidade. Sorrisos moderados. Palavras polidas. Um comportamento aceitável, como se sentir demais fosse falha de caráter. Este mundo ama os dóceis, os adaptáveis, os que engolem a própria revolta e chamam isso de maturidade. Mas eu não sei ser mansa num mundo que me violenta todos os dias. Há momentos em que quero gritar. Não metáforas, mas verdades. Cruas. Sem ornamentos, sem piedade, sem o cuidado de não ferir sensibilidades frágeis. Quero lançar aos quatro ventos o que todos sabem, mas fingem não ver. Quero rasgar os véus da hipocrisia, expor as feridas que chamam de normalidade, nomear o que se prefere esconder sob discursos gentis. Minha fúria não é destruição gratuita. Ela nasce do excesso de lucidez, da consciência de viver num mundo que exige silêncio dos que sangram e bons modos dos que sofrem. Ser educada, aqui, é muitas vezes consentir. E eu não consinto. Sou ateia, sim Pois minha moral não vem do medo do castigo, vem do reconhecimento da dor alheia. Se não creio em deuses, creio na responsabilidade brutal de existir sem desculpas celestes. Nada nos salvará. E é justamente por isso que tudo importa. Sou fúria porque me negaram espaço. Sou fúria porque me pediram calma quando o mundo ardia. Sou fúria porque a serenidade imposta é apenas outra forma de violência. E se minhas palavras incomodam, é porque a verdade raramente sabe se sentar direito à mesa.
Olá, caro leitor.
Minhas Palavras Mal Escritas nasceu em 2008, quando eu tinha 18 anos e muitas perguntas. Surgiu como escrita livre, quase um sussurro, um lugar de tentativa, de dizer o que ardia por dentro e de me reconhecer nas palavras. Escrever, desde então, foi forma de permanecer, de me buscar e de me compreender.
Com o tempo, o blog também mudou, porque eu mudei. Sou feita de processo, de inacabamentos. Houve um silêncio longo, um hiato de dez anos, até que a escrita voltou a me chamar. Hoje escrevo sobre o que me atravessa e me sustenta: o amor, a educação, o transtorno bipolar, a família, as alegrias, as tristezas, política, mas também as coisas belas do mundo, tudo o que me constituem.
Neste espaço permanece o essencial. A escrita como travessia, no qual memória, experiência e vir-a-ser se encontram.
Por: Luany de Macedo Nascimento
Quem sou?
Mas até onde podes saber do que é o ser?
Eu mesma nada sei, senão do pó e das cinzas que um dia serei, e das cinzas de outros tempos que, antes de mim, me moldaram.
Sou feita do que foi, do que se perdeu e do que insiste em permanecer.
Difícil dizer quem sou, quando em mim habitam muitos rostos, muitas vozes, muitos tempos e personagens. Não são máscaras dispersas,
mas fragmentos de uma mesma alma em travessia.
Cada personagem que me atravessa não me divide, ao contrário, constitui-me.
Luany de Macedo
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