Dói medir a vida em comprimidos,
De segunda a domingo, marcados não por dias, mas por doses,
um comprimido pra calar o excesso, outro pra acordar o nada,
tamanhos e formatos diferentes prometendo equilíbrios que nunca chegam,
e eu contando cápsulas como quem conta derrotas.
Remédio pra isso, pra aquilo, pra mim, pra quem eu era,
bulas que falam mais de mim do que meus próprios diários,
efeitos colaterais sussurrando novas versões de mim mesma,
e a esperança virando pó no fundo de cada cartela,
porque melhorar parece sempre um verbo adiado.
A mente não clareia, ela embaralha, embaralha, embaralha,
pensamentos tropeçam uns nos outros como móveis no escuro,
nomes somem, vontades evaporam, sentidos se confundem,
o mundo fala alto demais, sente forte demais, gira rápido demais,
e tudo piora mesmo quando dizem que era pra melhorar.
Agora o que resta não é grito nem tempestade,
é o vazio parado depois do desastre,
é um silêncio espesso grudado nos ossos,
é existir sem cor, sem peso, sem eco,
a mais pura e angustiante apatia.
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