As palavras não pedem licença,
irrompem cruas, sem conter,
ardem na pressa da existência,
como se já viessem a arder.

Quentes, rápidas, atravessadas,
ferem antes de se formar,
nascem prontas, precipitadas,
dentro da voz a transbordar.

É irritação sem motivo visível,
um nervo aceso a latejar,
um incômodo quase invisível,
mas impossível de ignorar.

Sons ferem como aço frio,
portas parecem explodir,
vozes pesam, densas, no vazio,
sobre o peito a insistir.

E algo em mim se endurece,
distante de qualquer calor,
uma frieza que me esquece
do gesto mínimo de amor.

Fico áspera, quase ausente,
como quem deixa de sentir,
uma ausência que, de repente,
me rouba antes de existir.

Então tudo estoura de vez,
um caos súbito no ar,
e quanto mais busco lucidez,
mais tudo insiste em quebrar.

Faíscas correm sem medida,
num espaço prestes a ceder,
como um gás na sala contida,
esperando apenas arder.

Quando passa, não há alento,
nenhuma paz a repousar,
resta um denso esvaziamento
onde nada vem habitar.

A apatia senta ao meu lado,
silenciosa, a me encarar,
como se fosse o único estado
que ainda resta a me habitar.

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