Hoje a casa parecia ter perdido o próprio eixo. Móveis fora do lugar, objetos empilhados, móveis desmontados, caminhos interrompidos por caixas, como se tudo tivesse sido virado do avesso para, só então, poder recomeçar. Havia um certo desassossego no ar, um cansaço que não era apenas do corpo, mas também da tentativa constante de reorganizar o mundo ao redor.

Ainda assim, no meio da bagunça, algo silenciosamente começava a se reconstruir. Aos poucos, cada coisa encontrava um novo lugar, e a casa, antes desordenada, ia ganhando forma outra vez, não a mesma de antes, mas uma forma possível, habitável, quase acolhedora.

O dia foi longo, muito longo. Daqueles que pesam nos ombros e fazem o tempo se arrastar entre um esforço e outro. Mas, curiosamente, não foi um dia vazio. Houve vida nele. Houve presença.

O sorriso leve da minha filha atravessou o cansaço como uma fresta de luz, simples e suficiente para lembrar que nem tudo estava fora do lugar. A conversa com meu esposo fluiu sem esforço, dessas que não exigem nada além de estar ali, compartilhando o mesmo instante. E, ao fundo, os The Beatles preenchiam os espaços vazios, como se organizassem também o silêncio da casa.

Em algum momento, entre uma coisa e outra, vieram golos longos do meu néctar dos deuses, cerveja, gelada e sincera, quase como um pequeno ritual de descanso dentro de um dia que exigiu tanto. Eu sei que não deveria. Há os remédios, há o cuidado que precisa ser constante, há a responsabilidade com o próprio corpo. Mas hoje não foi sobre descuido, foi sobre pausa, sobre permitir um respiro breve em meio à exaustão.

O mais curioso é que, mesmo com todo o cansaço, o sono não será uma luta. Hoje ele virá fácil, quase como um acordo silencioso entre o corpo e o dia vivido. Nem será necessário recorrer ao Clonazepam para fechar os olhos, o próprio esgotamento já cumpre esse papel com delicadeza inesperada.

E, no fim, é isso que fica, a certeza de que foi um dia cansativo, profundamente cansativo, mas ainda assim bom. Porque, em meio ao caos, houve encontro. E, pouco a pouco, a casa vai tomando forma outra vez...

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