Há algo de silenciosamente doloroso em perceber o aumento das dosagens dos próprios remédios. Como se o corpo dissesse, antes mesmo das palavras: “as coisas não estão bem”. Um comprimido a mais, miligramas ajustados e, junto disso, uma sensação amarga de fracasso, embora racionalmente eu saiba que não seja. O transtorno bipolar tem essa crueldade: ele faz a pessoa duvidar da própria estabilidade até nos períodos em que ela parece sobreviver normalmente.
Às vezes, não é a tristeza escancarada que assusta. É o vazio. A falta de interesse pelas coisas que antes tinham cor. O cansaço que não melhora com descanso. A ausência de expectativa diante dos dias. Como se existir tivesse se tornado apenas cumprir uma sequência automática de horas, consultas, medicações e tentativas de funcionar.
Existe também um luto difícil de explicar: o luto de si mesma. Da versão que conseguia sentir entusiasmo, desejar o futuro, imaginar possibilidades. E então vem o ajuste da medicação, o aumento do lítio, do antipsicótico, do antidepressivo, ansiolíticos, como uma confirmação clínica de algo que o coração já sabia em silêncio: estou adoecendo outra vez.
Mas talvez a parte mais exaustiva do transtorno bipolar seja justamente essa consciência. Saber nomear os sinais. Perceber o corpo mudando, a mente desacelerando ou entrando em colapso aos poucos. E, ainda assim, precisar continuar vivendo enquanto tudo dentro parece distante, nebuloso e sem brilho.
Há dias em que até o afeto parece cansado. As conversas perdem sentido no meio do caminho, os planos parecem excessivamente longos, e o futuro deixa de ser uma promessa para se tornar apenas uma continuidade inevitável. O mundo continua acontecendo do lado de fora, barulhento, rápido, cheio de expectativas, enquanto por dentro existe apenas uma espécie de suspensão. Não exatamente dor o tempo inteiro, mas ausência. Como se algo fundamental tivesse sido lentamente drenado.
E uma das partes mais solitárias seja perceber que quase ninguém entende esse esgotamento silencioso. Porque quem olha de fora ainda vê alguém levantando da cama, respondendo mensagens, tentando estudar, sorrindo às vezes. Mas existir assim exige uma força imensa. Há um cansaço profundo em precisar lutar diariamente contra a própria mente enquanto se tenta convencer os outros, e a si mesma, de que ainda há alguma possibilidade de melhora escondida em meio ao entorpecimento, aos comprimidos e ao vazio. A depressão parece bater na porta outra vez...
0 comments:
Postar um comentário