Despertei antes do horário previsto. O relógio ainda marcava horas que pertencem ao silêncio, quando a cidade permanece suspensa entre o sono e a vigília. A luz tímida do amanhecer insinuava-se pela janela, e foi então que a vi: uma estrela solitária, resistindo no céu cinzento. Seu brilho persistente me atravessou. Sempre me reconheci nas estrelas. Mesmo quando organizadas em constelações, parecem inevitavelmente sós. Brilham sem plateia, sustentam sua existência sem testemunhas. Assim também são certos sentimentos: intensos, reais, mas invisíveis aos olhos distraídos. Às vezes, apagam-se de súbito, deixando um vazio denso, quase gravitacional, como um buraco negro que suga a alegria ao redor.

Ao fundo, o Clã da Floresta ainda ecoava uma melodia suave. O som me envolvia com delicadeza, como se o ar dançasse lentamente ao meu redor. Entre os acordes, um violino solitário se destacava. Seu timbre era nervoso, quase humano. Não era apenas música. Era lamento. O violino parecia compreender a dor que carrego, chorava comigo aquilo que não se diz em voz alta.

A solidão, quando prolongada, adoece o corpo. Passei horas tentando expulsar do peito esse peso invisível, como se fosse possível arrancar o que não tem forma. Quando percebi, a noite já havia tomado o céu. Meu corpo ardia em febre, e não havia remédio algum que alcançasse o que doía de verdade.

Foi então que compreendi que certas dores não pedem cura, pedem sentido. E o sentido, quando existe, não se apresenta como resposta, mas como pergunta. Permaneci ali, imóvel, escutando o silêncio que me atravessava. Não havia ninguém a quem recorrer, e talvez nunca houvesse. A existência se impunha crua, sem promessa de alívio.

O céu noturno não oferecia consolo, apenas presença. As estrelas permaneciam distantes, indiferentes ao meu cansaço, e ainda assim fiéis. A lua seguia seu curso sem me notar. Não estavam ali para salvar, apenas para lembrar que o mundo continua mesmo quando tudo em nós parece suspenso.

Percebi que viver não é encontrar abrigo, mas sustentar o peso de estar aqui. Há dias em que existir exige mais coragem do que amar. Não há redenção escondida no horizonte, apenas a repetição dos gestos, o tempo que avança, o corpo que insiste. E, apesar disso, sigo.

Não por esperança.
Mas por responsabilidade com o próprio existir.

A solidão deixa de ser ausência e se torna espelho. Nela, sou obrigada a encarar o que resta quando tudo o que distraía desaparece. Não há máscaras possíveis, nem narrativas que suavizem o real. Apenas o eu, lançado no mundo, tentando não se perder de si.

Talvez seja isso a condição humana. Um intervalo breve entre o nascer e o desaparecer, preenchido por tentativas de significado. E enquanto as estrelas seguem queimando em silêncio, continuo aqui, sustentando a pergunta que não se cala.


A noite em que o riso deveria reinar
Tornou-se um véu de sombras e de espanto...
Sonhei-me presa a um mundo a me enganar,
Onde um só olhar teu valia o quebranto.

Teu perfume pairava, doce e fatal,
Tua voz, tremeluzia em minha razão.
E mesmo no sonho, amor descomunal,
Feriu-me o peito com cruel paixão.

Oh! Culpa amarga, que pesa e castiga,
De amar quem a mim jamais pertenceu...
Tranquei meus sorrisos, calei minha briga,
E até o vinho dos deuses perdeu seu mel.

Em silêncio contemplo teus olhos castanhos,
Moço dos sonhos que à alma consome...
Deixa-me amar-te nos meus desenganos,
Mesmo que eu morra sem dizer teu nome.


"Como pode alguém sonhar o que é impossível saber? Não te dizer o que eu penso, já é pensar em dizer. (...) Não sei mais, sinto que é como sonhar, que o esforço pra lembrar é a vontade de esquecer. "

Eras, outrora, sombra indiferente,
Um vulto a vagar por meu mundo calado...
Mas teus olhos tristes, de brilho dolente,
Fizeram meu peito arder enfeitiçado.

Teus cabelos dançam no sopro do vento,
Tua voz, tão suave me envolve e seduz.
E ao cruzar teu olhar, por um só momento,
Sinto-me à beira do abismo sem luz.

Em tua presença, minh’alma vacila,
Meu desejo silente consome meu ser.
Há um mistério em ti que me atrai e me instiga,
E um beijo teu... é meu mais doce querer.

Oh! Belo rapaz, gentil cavaleiro,
Onde estás senão nos sonhos meus?
Se ao despertar, eu te perco ligeiro,
E em prantos clamo teu nome aos céus...

Quando sou vencida pela a imaginação, meus lábios dizem teu nome.
Sinto acelerar meu coração, em um silêncio que nunca morre.  (Luany de Macedo, Janeiro de 2008.)


Quatro paredes, lilases, me encerram,
Testemunhas mudas do meu padecer.
Os dias se vão, os sonhos me enterram,
E o tempo se arrasta sem mais me entender.

No cinzeiro, memórias em brasa calada,
No café, um calor que já não me toca.
Sou sombra esquecida, alma isolada,
Num mundo sem cor, sem graça, sem forma.

A noite repete seu canto sombrio,
Com lágrimas secas e música ausente.
No peito, um abismo, um frio vazio,
Que cala a esperança, lenta e doente.

Meu rosto no espelho, pálido véu,
Não mostra quem fui, mas quem já perdi.
Os olhos são poços, a boca é um réu,
Condenado ao silêncio onde nunca sorri.

E peço à solidão: que seja total,
Não essa ilusão de estar acompanhada.
Quero o nada, o fim, o sono final,
Longe da vida, das vozes, de nada.




"Odeio quem me rouba a solidão sem me oferecer a verdadeira companhia" (Friedrich Nietzsche)

Quem sou? Mas até onde tu sabes de ser? Eu, nada sei de ser, além do pó e das cinzas que um dia serei. E que em outro tempo tornaram-me quem sou, quem fui... Sou a transitoriedade que o tempo me dá, sou um fio de instante perdido no meio do temporal da eternidade. Difícil dizer quem sou se há em mim vários personagens. Mas isso não quer dizer, que cada um não seja um pequeno pedaço de minha alma.
Sou o oposto dos meus sonhos, sou o oposto das metáforas, sou o oposto do ponto de partida e tão pouco sou a linha de chegada. Sou o oposto do oposto! Perdida e partida num verso reverso. Sou meus desejos não realizados.
Passei até o presente momento da minha vida, marcando encontros furtivos com a felicidade. Quando ela finalmente me assalta, percebo que não tenho nenhuma moeda para dá em troca. Por isso hoje, mendigo à sorte.

Sou a sobra do que fui, sou uma simples sombra, um simples suspiro! Sou tudo o que me resta da eterna falta que sobra em mim!