Luany de Macedo Nascimento, 05/04/2026
No âmago obscuro onde a consciência sangra,
Ergue-se um réquiem frio de razão que se desfaz;
Sou átomo errante em lógica que se desmancha,
Um ser que pensa e, ao pensar, perece mais.
No crânio, um templo em ruínas ecoa ideias mortas,
Sinapses são espectros em lúgubre procissão;
A mente, outrora altiva, hoje jaz entrecortada
Por lâminas sutis da própria reflexão.
Oh! Funesta lucidez que a mim se entranha e cresce,
Como um verme a devorar o néctar do ideal;
Pois quanto mais concebo a essência que me tece,
Mais sinto o peso atroz de um vácuo universal.
A vida, este fenômeno de química impassível,
É um cálculo imperfeito em fórmula sem calor;
E o eu, nesta equação de término previsível,
Não passa de um desvio entre a dor e o torpor.
Carrego em cada nervo a falência do sentido,
E em cada pulsação, o anúncio do final;
Pensar tornou-se um fardo lento, apodrecido,
Que nutre a morbidez de um ser racional.
Oh, consciência! Cárcere austero e sem clemência,
Que faz da própria luz um ácido a corroer!
Se a ignorância é paz, por que me deste a consciência
Que apenas me ensina, em lúcido sofrer?
Assim, prossigo inerte, em lúgubre vigília,
Entre o nada que fui e o nada a que hei de ir;
Sou ruína que raciocina e, em tal agonia fria,
Aprende, pouco a pouco, a arte de não existir.
Durante as férias que me dei, após conclusão de curso e o próximo passo em direção a pós graduação... Reassistir a série Dexter e é, inevitavelmente, revisitar uma pergunta incômoda: o que define o bem e o mal quando quem mata afirma seguir um código moral? Dexter Morgan não é apenas um serial killer ficcional; ele é uma construção narrativa que tensiona diferentes tradições éticas e nos obriga a confrontar os limites da moralidade.
Dexter se apresenta como alguém “vazio”, guiado por um “passageiro sombrio”. No entanto, ao longo da série, vemos afeto, vínculos, escolhas e até conflitos internos, elementos que desafiam a leitura simplista de psicopatia. Ele não mata indiscriminadamente: ele seleciona. Ele justifica. Ele segue um código aprendido com Harry. E é justamente aí que a discussão ética se abre.
A ética humanista valoriza a dignidade humana, a empatia e o reconhecimento do outro como sujeito. Nessa perspectiva, toda vida possui valor intrínseco. É aqui que Dexter mais falha. Mesmo que suas vítimas sejam criminosas, ele as reduz a objetos de sua necessidade. Ele não as reconhece como sujeitos passíveis de mudança, arrependimento ou complexidade. Há uma desumanização, ainda que seletiva. Por outro lado, a série tensiona isso ao mostrar que Dexter aprende a sentir, especialmente em suas relações com Rita, Debra e Harrison. Isso sugere que ele não é totalmente incapaz de humanidade, apenas fragmentado.
A ética de Kant é talvez a mais incompatível com Dexter. Para Kant, a moral deve ser guiada por princípios universais, o imperativo categórico: devemos agir de tal modo, que nossas ações possam ser consideradas universais. Dexter faz exatamente o oposto. Ele transforma suas vítimas em meios para satisfazer seu impulso e sua ideia de justiça. Mesmo que siga um “código”, esse código não é universalizável não pode ser aplicado a todos sem colapsar a própria ideia de moral. Sob a lente kantiana, portanto, Dexter não é um herói trágico: ele é moralmente indefensável.
Dessa forma, ao percorrer diferentes matrizes éticas, não se chega a uma validação das ações de Dexter, mas à evidência de sua complexidade moral e de como ele tensiona qualquer tentativa de enquadramento estável. Sua construção narrativa habita justamente as fissuras desses sistemas, revelando seus limites, contradições e insuficiências. Talvez, portanto, a questão nunca tenha sido decidir em qual teoria ele se encaixa, mas reconhecer que ele desorganiza todas elas. É nesse deslocamento do plano teórico para a experiência concreta da narrativa, que o debate deixa de ser apenas abstrato e passa a nos implicar diretamente enquanto espectadores, sobretudo quando nos aproximamos do desfecho da série.
Ao chegar ao final de Dexter, não se trata apenas de encerrar a trajetória de um personagem, mas de confrontar tudo aquilo que foi construído ao longo da narrativa: uma ética particular, cuidadosamente elaborada, que em vários momentos nos seduz, nos convence e, talvez de forma mais inquietante, nos faz concordar. Olhar para esse desfecho com mais atenção, com um olhar crítico, é perceber que a série nunca foi sobre justificar Dexter, mas sobre tensionar o próprio conceito de justiça que carregamos. Ao longo dos episódios, fomos levados a aceitar a lógica de que existem vidas descartáveis, de que há sujeitos que ultrapassaram qualquer possibilidade de redenção e, portanto, poderiam ser eliminados. E o mais perturbador não é que Dexter pense assim, mas que, em muitos momentos, nós também pensamos.
O final expõe as fissuras dessa construção. Ele revela que não há código capaz de conter completamente a violência, que não existe racionalidade que domestique o impulso sem deixar rastros de destruição ao redor. As relações que Dexter constrói, os afetos que ele insiste em negar e, ao mesmo tempo, não consegue evitar, mostram que ele nunca foi apenas um “monstro controlado”. Há humanidade ali fragmentada, contraditória, muitas vezes silenciada, mas suficiente para tornar tudo mais complexo. Porque, se há humanidade, há escolha. E se há escolha, há responsabilidade.
É nesse ponto que a série se torna profundamente incômoda. Ela nos obriga a reconhecer que a linha entre justiça e vingança é mais tênue do que gostaríamos de admitir. Que o discurso de “fazer o que precisa ser feito” pode facilmente escorregar para uma lógica em que qualquer meio se torna justificável. E que, quando abrimos essa brecha, já não estamos tão distantes daquilo que julgávamos condenar. Dexter não é apenas um indivíduo fora da norma; ele é, em certa medida, um espelho distorcido de uma sociedade que, por vezes, também deseja punições rápidas, definitivas e silenciosas.
Assim, o final não fecha a história, ele a desestabiliza. Ele retira qualquer conforto moral que ainda pudesse restar e nos devolve a responsabilidade de pensar. Pensar sobre o valor da vida, sobre os limites da justiça, sobre o perigo de naturalizar a violência quando ela parece estar “a nosso favor”. Para quem se permite olhar mais de perto, Dexter deixa de ser apenas uma série sobre um assassino e se transforma em uma provocação ética contínua, que permanece mesmo depois do último episódio: afinal, o que, de fato, nos autoriza a decidir quem merece viver ou morrer? E o que isso revela sobre nós?
Luany de Macedo Nascimento, 01 de Abril de 2026
Há algo em mim que nunca aprendeu a se curvar. Não foi uma decisão repentina, nem um rompimento tardio. Foi mais como uma consciência que sempre esteve ali, mesmo quando eu ainda não tinha todas as palavras para nomeá-la. Desde cedo, eu já sentia que o lugar que tentavam desenhar para mim era estreito demais. Havia uma inadequação silenciosa, uma recusa quase instintiva em aceitar que meu existir precisasse caber em limites tão bem definidos por outros.
Enquanto muitas vozes diziam o que uma mulher deveria ser, eu já me colocava em deslocamento. Não por rebeldia vazia, mas por uma espécie de lucidez precoce. Eu não me reconhecia na submissão, não me via na renúncia como destino, nem na ideia de que minha vida precisaria girar em torno de expectativas alheias. Havia em mim um entendimento, ainda que em formação, de que ser mulher não poderia significar ser menos.
Com o tempo, essa percepção não apenas permaneceu, ela se aprofundou. Ganhou corpo, linguagem, consciência. Eu fui compreendendo que aquilo que eu recusava não era individual, mas estrutural. Que as tentativas de me moldar não eram acidentais, mas parte de algo maior, de um sistema que organiza lugares, define vozes e distribui silêncios.
Mas eu nunca me encontrei nesses silêncios.
Minha existência sempre foi uma afirmação, mesmo quando não era dita em voz alta. Uma afirmação de que eu posso ser, pensar, escolher, ocupar, sem precisar me justificar. Não houve um momento de ruptura porque nunca houve, de fato, adesão. O que existiu foi um caminho de fortalecimento, de compreensão mais profunda daquilo que, de algum modo, eu já intuía.
E isso não significa que o mundo tenha sido simples. Pelo contrário. Significa que, muitas vezes, eu precisei sustentar minha posição em meio a olhares que estranham, discursos que tentam diminuir, estruturas que insistem em delimitar. Mas há algo que me atravessa e permanece: eu não negocio a minha existência.
Ser feminista, para mim, não é apenas uma posição política, é uma forma de estar no mundo. É a maneira como eu me reconheço, como me coloco, como me relaciono com o que me cerca. Não se trata apenas de recusar o que oprime, mas de afirmar, todos os dias, a legitimidade da minha voz, do meu corpo, das minhas escolhas.
Eu não luto para me tornar algo que me foi negado. Eu luto para continuar sendo aquilo que nunca me permiti deixar de ser.
E, nesse movimento, eu não estou só. Há outras mulheres, outras histórias, outras vozes que não se dobraram, que também sustentam suas existências com firmeza. Há uma força que não começa em mim, mas que também não passa por mim sem deixar marcas. Uma força que se reconhece, que se amplia, que resiste.
No fim, não se trata de confronto constante, embora ele exista. Trata-se, sobretudo, de permanência.
Eu permaneço inteira.
Escrever para ninguém é um ato estranho, quase um ritual silencioso de entrega. Eu me sento diante do computador como quem se senta diante de um espelho que não devolve reflexo, não por ausência de imagem, mas por excesso de profundidade. Não há superfície onde eu possa me reconhecer com nitidez. Há apenas um mergulho. Eu falo, confesso, sangro palavras e nada responde. Nenhum eco. Apenas o som seco das teclas marcando o tempo, como um relógio que não mede horas, mas vulnerabilidades.
Há algo de desconcertante nisso. Eu me exponho em carne viva sem a garantia de um olhar que sustente. Cada frase é um fragmento arrancado com precisão quase cirúrgica, cada metáfora um nervo exposto que pulsa sem anestesia. Ainda assim, o silêncio não se rompe. Ele se adensa, fica espesso, imóvel, como uma presença que não acolhe nem rejeita. Apenas existe. E, nesse cenário, escrever deixa de ser comunicação. Se aproxima de uma dissecação lenta, inevitável, íntima demais para ser confortável.
Às vezes sinto que tudo se perde no instante em que nasce. Minhas palavras parecem cair num abismo sem fundo, como se se dissolvessem antes de tocar qualquer superfície. Não há retorno, não há confirmação de que chegaram a algum lugar. Mesmo assim, algo permanece. Não é exatamente um eco, mas uma ressonância interna, como se o próprio ato de escrever já fosse suficiente para sustentar o que foi dito.
Eu percebo que o mundo da escrita pode ser sombrio nesse sentido. Não pela ausência de pessoas, mas pela natureza do que acontece dentro de mim enquanto escrevo. O som do teclado ecoa como passos em um corredor longo, onde cada porta aberta revela apenas mais de mim mesma. Eu coloco tudo no texto. Memórias que ainda ardem, feridas que nunca se fecharam por completo, sonhos que se deformaram com o tempo, ruínas que continuam de pé dentro de mim. E tudo isso é lançado ao mundo sem garantia de destino, sem rosto definido para receber.
Em alguns momentos, me pergunto se o que escrevo é triste demais. Se há um excesso de peso nas palavras, uma densidade que afasta em vez de aproximar. Mas, quando olho com mais cuidado, percebo que talvez essa não seja a pergunta certa. No fim das contas, não estamos todos atravessados por alguma forma de dor? Essa euforia coletiva pela busca incessante da felicidade me soa, muitas vezes, como um sonho juvenil, quase ingênuo, como se fosse possível habitar permanentemente um estado que, por natureza, é passageiro.
Felicidade, para mim, nunca se sustentou como permanência. O que existe são momentos. Instantes breves, às vezes quase imperceptíveis, que se acendem e se apagam com a mesma rapidez de uma brisa leve. E talvez seja justamente por isso que se busca tanto por ela, como se fosse possível capturá-la e mantê-la intacta. Eu já não acredito nisso. A duras penas, eu aprendi a reconhecer o movimento do pêndulo, essa oscilação inevitável entre o que pesa e o que alivia.
E, dentro desse movimento, eu faço o que posso. Eu me agarro aos momentos que aquecem, que aliviam, que suspendem por alguns segundos o peso do mundo. Eu os vivo com intensidade porque sei que passam. Sempre passam. Não há permanência, apenas travessia.
Por isso, o que escrevo não é tristeza. O que escrevo é realidade. É o que me atravessa, o que me constitui, o que insiste em existir mesmo quando eu tento silenciar. Minhas palavras não são um exagero do que sinto, são uma forma de dar contorno ao que já está aqui.
E talvez seja isso que sustenta tudo. Minhas palavras não nascem do encontro com o outro. Elas nascem da necessidade. Há coisas dentro de mim que não aceitam permanecer em silêncio. Elas pressionam, latejam, exigem passagem. Escrever deixa de ser escolha e se torna um movimento orgânico, quase involuntário, como respirar depois de tempo demais submersa.
Nesse ponto, o silêncio já não me parece um inimigo. Ele faz parte do processo. É o espaço onde o texto existe por si só, sem depender de resposta, sem precisar ser validado. O que eu escrevo carrega sua própria razão de existir. Não porque será lido, mas porque precisou ser dito.
Eu aceito, então, esse paradoxo. Eu me exponho completamente mesmo diante do vazio. Fico em carne viva diante da tela, mesmo quando nada se move do outro lado. E continuo. Não por esperar algo em troca, mas porque há algo em mim que insiste. Algo que transforma silêncio em palavra, mesmo quando ninguém está ouvindo.