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Luany de Macedo
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O tempo não passa. Ele me atravessa. Sinto como se ele escorresse por dentro de mim, como uma presença que não se vê, mas que altera tudo o que toca. Às vezes é leve, quase imperceptível, como um sopro que apenas desloca o ar ao redor. Outras vezes, pesa. Se acumula nos ombros, nos olhos, na forma como eu lembro e naquilo que já não consigo mais esquecer. E sigo, com essa estranha sensação de que estou sempre um pouco atrasada para a minha própria vida.
Há dias em que acordo acreditando que tudo ainda está por acontecer. Como se existisse um momento exato em que tudo finalmente faria sentido. Nesses dias, caminho com uma espécie de esperança silenciosa, como quem aguarda algo sem saber exatamente o quê. Mas então o tempo se move, e o que parecia "promessa" começa a se dissolver.
As certezas perdem contorno. Os planos deixam de parecer tão firmes. E eu percebo que muitas das coisas que eu jurava que seriam para sempre já não cabem mais em mim. É como se eu tivesse sido feita de versões que vão ficando pelo caminho, pedaços de uma identidade que já não me define, mas que ainda ecoa em algum lugar dentro de mim.
Eu olho para trás e não vejo uma linha contínua. Vejo fragmentos. Momentos intensos que perderam a nitidez, escolhas que já não sei explicar, sentimentos que um dia foram absolutos e hoje parecem distantes, quase pertencentes a outra pessoa. E ainda assim, fui eu. Inteiramente eu. Existe uma estranha beleza nisso.
A ideia de que eu nunca fui fixa, nunca fui definitiva. De que estou sempre em processo, sempre me tornando algo que ainda não sei nomear. Mas junto com essa beleza, existe também um certo desconforto. Uma inquietação que não me abandona, como se eu estivesse constantemente me reconstruindo sem nunca chegar a uma forma final. E talvez não exista forma final.
Talvez a vida não seja sobre alcançar um estado de plenitude, mas sobre sustentar esse movimento contínuo entre o que fui, o que sou e o que ainda posso ser. Talvez o tempo não esteja me levando a algum lugar específico, mas apenas me transformando, camada por camada, até que eu já não reconheça completamente o início de mim.
Há momentos em que tudo desacelera. E nesses instantes raros, eu sinto uma espécie de presença absoluta. Como se o agora se expandisse e ocupasse todo o espaço possível. Não há passado me puxando nem futuro me exigindo. Só esse instante, denso e silencioso, onde eu existo sem precisar justificar nada. E é curioso como esses momentos, tão pequenos, parecem conter mais verdade do que todos os grandes planos que já fiz. Mas eles passam.
E eu volto a esse fluxo inquieto, a essa sensação de que estou sempre tentando alcançar algo que se move junto comigo. É como correr atrás do próprio reflexo. Quanto mais eu avanço, mais se afasta, e ainda assim, eu continuo correndo.
Há em mim uma vontade quase ingênua de permanência. De fazer com que certas coisas durem mais do que deveriam. Pessoas, sentimentos, versões de mim mesma. Eu me apego como quem tenta desafiar o inevitável, como se o tempo pudesse, por um instante, hesitar diante do meu desejo. Mas ele não hesita.
E talvez seja justamente isso que o torna tão verdadeiro. O fato de que ele não se dobra, não negocia, não se explica. Ele apenas segue, indiferente às minhas tentativas de retenção, às minhas pausas internas, aos meus silêncios carregados de significado. E então eu começo a perceber que não sou apenas alguém que vive no tempo, eu sou também aquilo que sente o tempo.
Sou o lugar onde ele deixa marcas, onde ele se transforma em memória, em saudade, em aprendizado. Sou o espaço onde o instante deixa de ser apenas um ponto e se torna experiência. E isso me desloca. Porque, se o tempo me atravessa, eu também o modifico ao senti-lo. Talvez seja isso. Não deter o tempo, mas dar a ele uma forma íntima. Transformar o que passa em algo que permanece de outro modo. Não como matéria, não como presença concreta, mas como sentido. Como aquilo que, mesmo depois de ter ido embora, ainda continua habitando em mim.
Mas há também um outro chamado, mais silencioso do que todos os outros. Uma espécie de convite quase esquecido: o de viver com intenção. De não deixar que os dias se acumulem apenas como tarefas cumpridas, mas como algo realmente vivido. De recusar, mesmo que discretamente, essa vida automática que se constrói sem que a gente perceba.
Porque existe um risco quase invisível em se acostumar. Em aceitar o ritmo imposto, em adiar a vida para depois, em preencher os dias com o que é esperado, mas não necessariamente sentido. E quando se percebe, já não se sabe exatamente quando foi que se começou a apenas passar pelos dias em vez de habitá-los.
Talvez por isso exista essa necessidade de simplificar por dentro. De escutar com mais atenção o que ainda pulsa, o que ainda insiste, o que ainda pede espaço. Não para fugir do mundo, mas para não se perder completamente nele. Para que a vida não se torne apenas uma sequência de obrigações bem executadas, mas uma experiência que, de fato, nos atravessa de volta.
Eu sigo com minhas dúvidas que nunca cessam completamente. Com minhas certezas frágeis que insistem em surgir. Com essa vontade quase teimosa de fazer da minha existência algo que não seja apenas passagem. Algo que, mesmo sendo transitório, tenha peso, tenha profundidade, tenha verdade.
Porque no fundo, o que me inquieta não é o fato de o tempo passar. É a possibilidade de eu passar por ele sem realmente ter estado aqui. E isso me visita como um pressentimento. Não como um medo imediato, mas como uma ideia silenciosa que cresce nos cantos da consciência. A imagem de um fim onde tudo se aquieta, onde as perguntas cessam não porque foram respondidas, mas porque já não há mais tempo para fazê-las. E nesse possível fim, o que me assombra não é o vazio, nem a ausência, mas uma constatação tardia e irreversível: a de ter atravessado os dias sem ter realmente vivido.
De ter me ocupado tanto em alcançar, em corresponder, em esperar o momento certo, que deixei escapar o único tempo que existia, aquele que acontecia enquanto eu adiava. De ter confundido intensidade com pressa, sentido com expectativa, vida com preparação. E então compreendo que o perigo nunca foi o tempo acabar, o perigo sempre foi eu não ter acontecido dentro dele. Por isso, agora, ainda aqui, ainda em movimento, eu tento.
Não mais segurar o tempo, mas habitá-lo. Não mais esperar por um instante ideal, mas reconhecer o que pulsa neste exato momento. Porque talvez viver não seja encontrar um grande sentido final, mas impedir que, no último instante, reste apenas o silêncio de quem percebe, tarde demais, que passou pela vida como quem apenas assistiu. E eu não quero apenas assistir! Eu quero, mesmo que imperfeitamente, ter estado aqui.
Luany de Macedo Nascimento
Nesse movimento, a adoração perde sua direção e se transforma em reconhecimento. Aquilo que se atribuía ao absoluto, a bondade sem limites, a justiça perfeita, o amor que não falha, deixa de habitar um além inacessível e retorna, silenciosamente, como possibilidade ainda não assumida. Já não há distância entre quem contempla e aquilo que contempla. O que antes era reverenciado agora é presença. E, junto com essa proximidade, nasce uma responsabilidade mais profunda, quase incômoda, porque aquilo que se esperava de uma instância superior passa a pedir corpo, gesto e decisão. Passa a ser humano.
Mas esse retorno não acontece sem ruptura. Quando o fundamento externo se desfaz, o que resta não é imediatamente liberdade, mas vertigem. As antigas certezas, sustentadas por promessas de sentido, começam a ceder, e o chão que parecia firme revela sua instabilidade. O mundo deixa de oferecer respostas prontas, e o ser humano se percebe diante de uma liberdade que não escolheu, mas que não pode recusar. É uma liberdade que pesa, porque já não há para onde transferir o encargo de existir.
Diante disso, há quem tente reconstruir antigas imagens, como quem busca abrigo no que já não sustenta. Há também quem desvie o olhar, como se não ver pudesse restaurar alguma segurança perdida. Mas há aqueles que permanecem. Que suportam o vazio sem apressar respostas. Que aceitam o desconforto de não encontrar um sentido dado e, ainda assim, não recuam. Para esses, a ausência não é apenas perda, é também abertura. Se nada foi garantido, então tudo precisa ser criado. Se nenhum valor foi assegurado, então cada valor precisa ser afirmado, não como consolo, mas como escolha sustentada.
Pouco a pouco, o gesto de se curvar vai cedendo lugar ao de se erguer. Não por orgulho, nem por uma certeza recém-descoberta, mas por compreender que não há outro lugar de onde possa vir aquilo que se busca. A grandeza antes projetada para além começa a insinuar-se como potência ainda não vivida. E, em vez de procurar amparo no que transcende, o olhar se volta para aquilo que ainda pode se tornar.
Não é um caminho sereno. Há nele uma solidão que não se dissolve, uma ausência de garantias que acompanha cada passo, um encontro constante com a própria insuficiência. Mas há também algo raro, quase silencioso, que nasce nesse espaço. A possibilidade de existir sem apoios invisíveis, de afirmar a vida não porque ela foi prometida como boa, mas porque, apesar de tudo, se escolhe habitá-la e dar-lhe forma.
Ainda assim, quem vive assim costuma ser atravessado por olhares que não compreendem. Há uma desconfiança sutil, como se lhe faltasse algo essencial, como se sua vida estivesse condenada a um vazio inevitável. Confunde-se facilmente a ausência de uma referência externa com ausência de sentido, como se o valor só pudesse vir de fora. Mas o que não se vê é o peso silencioso que essa forma de existir carrega. Sem absolvição pronta, sem promessa de reparo, cada gesto se torna mais denso. Cada escolha, mais irreversível. E talvez seja isso que inquieta. Não a falta de um céu, mas a presença de alguém que, mesmo sem ele, permanece de pé, sustentando, com as próprias mãos, aquilo que decide viver.
Talvez, no fim, não se trate de negar o céu, mas de perceber que ele nunca esteve onde se imaginava. E que, ao retirar os olhos do alto, revela-se algo mais exigente e mais íntimo, a tarefa de habitar, sem desvios, a própria condição humana.
E então resta uma pergunta que não se deixa calar, que insiste mesmo no silêncio. Quando não há testemunhas invisíveis, quando nenhuma promessa nos observa, o que ainda nos move? O que sustenta a bondade, a justiça, a dignidade, quando nada nos assegura retorno? Nesse ponto, tudo se torna mais nu. Já não se trata de obedecer, mas de responder. Já não se trata de esperar, mas de assumir. E, nesse deslocamento, a vida deixa de ser conduzida por uma esperança futura e passa a ser atravessada por uma ação presente. Talvez isso seja algo profundamente inquietante e, ao mesmo tempo, intensamente humano que se revela. A possibilidade de que o valor de uma vida não esteja em seguir uma verdade eterna, mas em ser capaz de sustentar, no próprio existir, os valores que se tem a coragem de reinventar.
1- O fogo que me fez gigante
Houve um dia em que o céu não estava acima de mim, mas dentro.
Não era metáfora ainda, era sensação. Uma expansão tão vasta que eu não cabia nos meus próprios ossos. Eu caminhava e o chão me obedecia. O vento me reconhecia. As pessoas pareciam figurantes de uma história que, finalmente, era minha. Eu acordei maior do que o mundo e o mundo, de repente, pareceu pequeno demais para conter meu corpo, minha voz, meus pensamentos. Era como se tivessem retirado um limite invisível da minha cabeça e tudo começasse a transbordar.
Não houve tristeza, não houve aviso, não houve silêncio. Houve fogo!
Passei a dormir duas, três horas por noite, quando dormia. Não por insônia, mas por desnecessidade. O sono parecia uma perda de tempo injustificável diante da urgência de existir daquele jeito. Havia sempre algo mais importante para fazer: escrever, falar, organizar ideias, planejar futuros inteiros em uma única madrugada. Eu acordava antes do despertador, com o coração acelerado, cheia de projetos que pareciam absolutamente possíveis. Tudo parecia possível.
Eu falava rápido. Pensava rápido. Caminhava rápido. As palavras vinham em cascata, se atropelando na minha boca. As pessoas riam, no começo. Diziam que eu estava inspirada, produtiva, brilhante. Algumas se encantavam. Outras se afastavam com um cuidado que eu não percebia, porque naquele estado não existia rejeição que me atingisse. Eu não precisava de aprovação. Eu era suficiente para mim mesma, e isso parecia liberdade.
O corpo começou a dar sinais que eu ignorei. Tremores leves nas mãos. Um cansaço que eu empurrava para longe com mais movimento. Uma fome estranha que desaparecia antes de se completar. Eu esquecia de comer não por descuido, mas porque comer parecia irrelevante. O corpo era um detalhe inconveniente diante da grandiosidade da mente.
As noites eram longas e cheias. Eu escrevia compulsivamente, como se estivesse tentando salvar algo antes que desaparecesse. Textos intermináveis, mensagens longas, confissões que atravessavam a madrugada. Havia uma sensação constante de que, se eu parasse, algo se perderia para sempre. Como se a pausa fosse uma ameaça. Eu não sabia, ainda, que aquilo era um episódio maníaco.
Naquele momento, eu acreditava que tinha, finalmente, acessado minha versão mais verdadeira. Pensava: é isso que eu sou quando não me saboto, quando não me diminuo, quando não me calo. A ideia de que aquilo pudesse ser doença me ofendia. Doença era o que me apagava, não o que me acendia daquele jeito.
Houve um incêndio silencioso que começou nos meus pensamentos e se espalhou pela carne. Meus músculos vibravam. Minha língua tropeçava de tanta palavra. Minha mente era uma constelação em expansão. Eu não sabia, ainda, que aquele brilho tinha um custo. Que toda luz intensa cobra o escuro em algum momento.
A queda não teve som.
Não houve estrondo, não houve grito, não houve tempo para entender. Foi como se alguém tivesse desligado o mundo no meio de uma frase. Na noite anterior, eu ainda falava demais, pensava rápido demais, acreditava demais. Na manhã seguinte, eu acordei sem peso próprio, como se o corpo tivesse sido esvaziado durante o sono.
Não era tristeza. Era colapso.
Abri os olhos e tudo estava errado. A luz do quarto doía. O ar parecia denso demais para entrar nos pulmões. Meu coração, que antes corria como cavalo solto, agora batia lento, pesado, desinteressado. Tentei me levantar e o corpo não respondeu. Não por preguiça, mas por falência. Como um sistema que entrou em pane geral.
Sentei na cama e chorei sem entender por quê. Não havia um pensamento triste que justificasse aquele choro. Ele simplesmente aconteceu, bruto, físico, incontrolável. As lágrimas vinham de um lugar anterior à linguagem. Meu rosto inchou, minha garganta fechou, minhas mãos tremeram. Eu não sabia o que estava acontecendo, mas sabia que algo tinha quebrado. A queda pós-mania não é descida. É impacto.
O corpo, que vinha funcionando em sobrecarga, desligou para se proteger. A mente, exausta, perdeu a capacidade de organizar qualquer coisa. Tudo o que antes fazia sentido agora parecia absurdo. Os planos da semana passada eram ridículos. As mensagens enviadas de madrugada me causavam vergonha imediata, quase insuportável. Eu relia coisas que tinha escrito e sentia vontade de desaparecer. A vergonha chegou junto com a lucidez.
Era como acordar depois de um delírio coletivo em que só eu tinha participado. Meu corpo doía inteiro. Músculos cansados, cabeça pesada, olhos ardendo. Era como se eu tivesse corrido uma maratona emocional sem preparo algum. Cada gesto exigia um esforço desproporcional. Levantar da cama era um projeto. Escovar os dentes, uma negociação interna. Comer, uma ideia distante.
O silêncio que veio depois da mania não era descanso. Era abandono.
Eu me sentia vazia de um jeito novo. Não aquela tristeza conhecida, lenta, que se instala aos poucos. Era um buraco aberto de uma vez, um vazio abrupto, assustador. O contraste era tão violento que parecia que duas pessoas diferentes ocupavam o mesmo corpo em dias consecutivos.
Na véspera, eu era excesso. Agora, eu era falta. O pensamento suicida não chegou como drama. Chegou como constatação. Um raciocínio simples, quase lógico: se isso é o que sobrou depois do incêndio, talvez não valha a pena continuar. Não havia desespero explícito ainda, mas havia uma indiferença perigosa. A ideia de não existir parecia confortável, um descanso possível.
Esse é o perigo da depressão bipolar: ela não implora. Ela convence. As mensagens se acumulavam e eu não respondia. Eu não tinha energia para explicar o que nem eu entendia. Qualquer tentativa de contato parecia invasiva. Eu queria silêncio, mas o silêncio não me acolhia. Ele apenas ampliava o vazio.
Meu corpo começou a dormir demais. Não um sono reparador, mas um apagamento. Eu dormia horas a fio e acordava exausta, com a sensação de que não tinha estado em lugar nenhum. Sonhos confusos, fragmentados, cheios de imagens da mania que agora pareciam caricaturas cruéis de mim mesma.
A comida perdeu o gosto. O banho não trazia alívio. A música, antes indispensável, agora irritava. Tudo parecia distante, como se houvesse um vidro grosso entre mim e o mundo. Eu via as coisas acontecerem, mas não conseguia tocá-las emocionalmente.
Foi nesse ponto que procurei ajuda, não por esperança, mas por incapacidade. Eu não confiava mais no meu julgamento. A mente que dias antes parecia brilhante agora era um terreno instável, perigoso. Eu sabia, de algum lugar ainda funcional dentro de mim, que precisava de contenção externa.
O consultório médico não parecia hostil. Eu tentava explicar o que tinha acontecido, mas as palavras vinham lentas, falhas. Como descrever a queda de algo que ninguém viu voar? Como explicar que eu tinha estado no auge e agora estava no chão, sem transição?
Quando o médico falou em transtorno bipolar, eu ouvi com atraso. As palavras demoraram a alcançar o significado. Bipolar. Duas extremidades. Dois polos. Uma oscilação que não é escolha, nem temperamento. Eu quis negar, quis argumentar, quis fugir.
Mas algo em mim reconheceu. Reconheceu com medo, mas reconheceu. Havia um padrão ali. Uma lógica cruel, mas lógica. O fogo, a queda, o vazio. Não era a primeira vez que algo assim acontecia, era apenas a primeira vez que alguém dava um nome.
A medicação entrou como uma tentativa de conter o desastre. Comprimidos pequenos para uma dor enorme. Eu engolia com resistência, como quem aceita uma rendição forçada. Não confiava neles, mas não confiava mais em mim.
Nos primeiros dias, nada melhorou. Pelo contrário, o corpo parecia ainda mais pesado. A mente, mais lenta. Havia uma sensação de estar sendo empurrada para dentro de um poço já fundo. Eu me perguntava se aquilo era mesmo tratamento ou punição. Mas a queda já tinha acontecido, o impacto já estava dado. O que vinha agora não era o fim do voo, era aprender a respirar no chão quebrado e o chão, eu descobriria em breve, não era estável.
3 - O chão que não sustenta
Depois da queda, eu imaginei que o pior já tivesse passado. Sempre imaginei o sofrimento como um pico, um momento agudo que depois cede, mas eu estava errada. O impacto não encerra nada. Ele inaugura, o chão não sustenta, o chão cede sob o próprio peso.
A depressão bipolar não é um estado de tristeza contínua, é um esvaziamento radical depois do excesso. O corpo fica como uma casa depois de uma festa incendiária: móveis quebrados, garrafas espalhadas, cheiro de fumaça impregnado em tudo. E ninguém vem limpar. É você, sozinha, sem força, olhando para os restos do que foi.
Eu acordava com uma sensação imediata de fracasso, antes mesmo de lembrar quem eu era. Não havia pensamento estruturado ainda, mas o corpo já sabia: existir era pesado demais. Não havia curiosidade pelo dia, não havia expectativa, havia apenas a obrigação de continuar respirando, e até isso parecia excessivo.
A vergonha se instalou como uma segunda pele. Vergonha do que eu tinha sido na mania, vergonha do que eu não conseguia ser agora, vergonha de precisar de ajuda, vergonha de não dar conta das tarefas mais simples, vergonha de existir daquela forma quebrada, dependente, lenta.
O corpo começou a falhar em pequenas coisas. A coordenação parecia imprecisa. Eu derrubava objetos, esquecia palavras básicas, perdia o fio do pensamento no meio da frase, a memória recente falhava. Eu entrava em um cômodo e esquecia o motivo. Lia a mesma página várias vezes sem absorver nada. A mente, antes rápida, agora parecia coberta por uma névoa espessa.
Esse é um aspecto pouco falado da depressão bipolar: o comprometimento cognitivo.
Não é só dor emocional. É dificuldade real de pensar, organizar, decidir. Isso mina a autoestima de um jeito profundo, porque não se trata apenas de sentir-se mal, mas de sentir-se incapaz. Eu duvidava da minha inteligência, da minha competência, da minha identidade. Quem eu era sem aquela mente afiada que a mania me fazia acreditar ser natural?
As medicações começaram a fazer efeito, mas não do jeito que eu esperava. O estabilizador de humor trouxe uma contenção pesada. Eu não despencava mais em abismos tão fundos quanto nos primeiros dias, mas também não subia nada. Eu me sentia amortecida! As emoções vinham filtradas, como se passassem por um pano grosso antes de chegar até mim.
Alguns dias, eu me perguntava se aquela anestesia emocional era o preço da sobrevivência. Se para não morrer eu precisava aceitar não sentir quase nada. A ideia me entristecia, mas até a tristeza vinha fraca demais para virar protesto.
O antidepressivo entrou com cuidado excessivo. A psiquiatria teme, com razão, reacender a mania. Então as doses eram pequenas, ajustadas lentamente e acompanhadas do lítio. Cada alteração vinha acompanhada de medo: e se eu subir de novo? e se eu cair mais ainda? Meu corpo virou um campo minado químico.
Vieram os efeitos colaterais. Náuseas pela manhã. Boca seca constante. Uma sonolência estranha, que não era sono verdadeiro, mas torpor, ganho de peso gradual, silencioso, que afetava minha relação com o espelho. Depois veio o emagrecimento rápido. Num piscar de olhos, menos 10 kilos.
Isso também não se fala o suficiente: as medicações afetam o corpo feminino de forma profunda. Hormônios, ciclo, libido, autoimagem.
Eu me sentia desconectada do meu próprio corpo. Como se estivesse morando em algo que não me pertencia mais. Eu observava meu reflexo e sentia estranhamento, como se aquela mulher fosse uma versão pálida de alguém que eu lembrava vagamente. As pessoas começaram a dizer que eu estava “mais tranquila”, mas eu queria gritar. Tranquila não era a palavra, eu estava contida, amarrada por dentro.
Mas eu sorria e concordava, porque explicar era cansativo demais, contrariar exigia energia que eu não tinha. Porque, no fundo, eu também tinha medo de questionar demais e perder aquele frágil equilíbrio químico.
Os pensamentos suicidas voltaram em outro tom. Não como urgência explosiva, mas como presença constante. Uma ideia de fundo, persistente, como um ruído... Não era exatamente vontade de morrer, era vontade de não precisar continuar. Uma exaustão existencial profunda, difícil de comunicar sem assustar quem escuta.
Eu fazia acordos silenciosos comigo mesma: “Hoje não.”; “Amanhã eu vejo.”; “Só mais essa semana.”
Esse tipo de negociação interna é comum e perigosa. Ela mantém a pessoa viva, mas também normaliza a ideia da morte como alternativa possível. Eu vivia em estado de alerta constante, vigiando meus próprios pensamentos, desconfiando de mim. O isolamento se aprofundou. Não por falta de amor das pessoas, mas por falta de acesso interno. Eu não conseguia sentir conexão. O afeto batia na porta e eu não tinha força para abrir. Isso gerava culpa, mais uma camada pesada sobre um corpo já sobrecarregado.
Havia dias em que eu conseguia funcionar minimamente, conseguia me alimentar, por exemplo. Em outros, eu não saía da cama. Não por escolha, mas por incapacidade. O corpo simplesmente não obedecia. E cada dia desses parecia confirmar a narrativa interna de inutilidade. O chão não sustentava porque ele próprio estava rachado.
E foi nesse terreno instável, entre a contenção química e o vazio emocional, que algo ainda mais perigoso começou a se formar. Um estado em que o corpo começava a recuperar energia, mas a mente permanecia mergulhada no desespero.
Eu ainda não sabia, mas estava me aproximando do território mais arriscado de todos, um estado onde tudo acontece ao mesmo tempo.
4 - Quando tudo acontece ao mesmo tempo
O primeiro sinal não foi alegria, foi movimento.
Depois de semanas de peso, algo no corpo começou a se mexer. Não era ânimo, não era esperança, não era melhora no sentido que as pessoas gostam de anunciar. Era energia crua, desorganizada, surgindo em um terreno ainda devastado. Eu conseguia levantar da cama com menos esforço. Caminhar pela casa. Falar um pouco mais. O corpo despertava, mas a mente continuava escura. Esse descompasso é traiçoeiro. Por fora, eu parecia “melhor”, por dentro, eu estava em guerra.
O estado misto não tem poesia. Ele é um erro de cálculo do sistema emocional. Uma sobreposição indevida de circuitos. A aceleração da mania encontra o desespero da depressão e cria algo novo, algo instável, algo perigoso. Eu tinha energia para agir, mas os pensamentos continuavam sombrios. Tinha impulso, mas nenhuma esperança. Tinha movimento, mas nenhum sentido e é nesse estado que o risco aumenta, porque agora o corpo obedece às ideias que antes estavam apenas ruminando em silêncio.
Minha mente voltou a correr, mas não em direção a ideias grandiosas e grande criatividade. Ela corria em círculos fechados, obsessivos. Pensamentos repetitivos, invasivos, violentos contra mim mesma, uma autocrítica feroz, incessante. Cada memória da mania era revisitada como prova de falha moral. Cada dificuldade atual era interpretada pela minha mente como confirmação de inutilidade permanente.
Eu falava mais, mas falava de desespero, chorava com raiva, me irritava com facilidade. Qualquer estímulo parecia demais: luz, som, perguntas, conselhos. Meu corpo vibrava por dentro como um fio desencapado. Não havia descanso possível, dormir ficou difícil de novo, mas agora o cansaço não desaparecia, era exaustão com insônia, um dos piores cruzamentos possíveis. A ansiedade explodiu!
Não aquela ansiedade difusa, mas uma angústia física, quase dolorosa. Aperto no peito, falta de ar. Uma sensação constante de iminência, como se algo terrível estivesse prestes a acontecer, embora nada estivesse acontecendo de fato. O corpo se preparava para fugir ou lutar, mas não havia para onde ir.
As medicações começaram a ser ajustadas às pressas. Redução de antidepressivo. Introdução de antipsicótico. Manutenção do estabilizador. Cada mudança trazia novos efeitos colaterais, novas incertezas. O antipsicótico me deixava sonolenta durante o dia e inquieta à noite. Eu caminhava pela casa sem rumo, incapaz de ficar parada, incapaz de descansar.
Esse tipo de inquietação tem nome: acatisia. Foi assim com o medicamento Aripripazol, um dos antipsicóticos que precisei fazer uso. Mas, antes do nome, tem sofrimento... um desconforto interno tão intenso que parece enlouquecedor. Eu queria sair do meu próprio corpo, arrancar a pele, silenciar a mente. Nada aliviava. Nem deitar, nem andar, nem chorar.
O pensamento suicida, que na depressão vinha como fundo constante, agora ganhou urgência. Não como plano elaborado, mas como impulso. Uma ideia que surgia acompanhada de energia suficiente para ser perigosa. Isso é o que torna o estado misto tão letal: a dor permanece, mas a paralisia não. Eu tive medo de mim.
As pessoas tentavam entender, mas o estado misto confunde até quem vive dentro dele. Não há narrativa clara. Não há linha temporal organizada. Há fragmentos, impulsos, explosões emocionais. Eu chorava e, minutos depois, estava andando rápido pela casa, falando sem parar, gesticulando demais, como se algo precisasse sair de mim à força.
A raiva apareceu com intensidade. Raiva das pessoas que diziam para ter paciência. Paciência com o quê? Com um cérebro que parecia me sabotar o tempo todo? Com uma vida que exigia equilíbrio de alguém que vivia em extremos? Eu me sentia perigosa, não para os outros, mas para mim mesma.
Esse reconhecimento dói. Admitir que você precisa de proteção contra si mesma é uma ferida narcísica profunda. Eu, que sempre valorizei autonomia, lucidez, controle, agora dependia de contenção externa para continuar viva. Isso me humilhava e me salvava ao mesmo tempo.
Foram semanas de ajustes finos, consultas, monitoramento... O estado misto não cede rápido. Ele precisa ser desmontado peça por peça, com cuidado, porque qualquer erro pode jogar o pêndulo para um dos lados com violência.
Aos poucos, muito aos poucos, a energia começou a se alinhar com a contenção. A inquietação diminuiu. O sono voltou em fragmentos mais longos. O pensamento perdeu um pouco da velocidade destrutiva. Não houve alívio súbito, mas houve uma redução do risco.
Eu sobrevivi ao estado misto, mas não saí ilesa.
Algo em mim mudou de forma permanente. Uma consciência aguda da fragilidade da mente, um respeito quase temeroso pelos sinais do corpo. Eu aprendi, da pior maneira possível, que não basta estar triste ou feliz para avaliar minha saúde mental. O perigo mora justamente nas zonas híbridas.
Quando a poeira começou a baixar, o que sobrou foi um corpo medicado, uma identidade em reconstrução e uma pergunta silenciosa: como viver sabendo que a própria mente pode, às vezes, se tornar um território tão hostil? Essa pergunta não se responde rápido. Mas eu ainda estava aqui para tentar.
5 - O corpo medicado
Depois da tempestade mista, não houve celebração. Não existe vitória quando se sobrevive por contenção química e vigilância constante. O que houve foi um silêncio diferente, um silêncio menos ameaçador, mas ainda estranho. Como o som que fica nos ouvidos depois de um barulho muito alto. Meu corpo já não era apenas meu, era também um acordo farmacológico.
Eu passei a medir os dias em horários de comprimidos. Manhã, tarde, noite. Antes de dormir. Ao acordar. Os remédios ocupavam um espaço mental fixo, uma espécie de ritual obrigatório para permanecer do lado de cá. Não havia esquecimento possível sem consequência. O corpo me lembrava. A mente me lembrava. A vida passou a girar em torno da estabilidade como valor supremo.
Eu me perguntava, em silêncio, se havia uma versão minha que pudesse existir sem precisar ser domada dessa forma. Uma versão que não precisasse ser constantemente monitorada, ajustada, corrigida. Mas essa pergunta não levava a lugar nenhum além da frustração. Eu precisava lidar com a realidade que existia, não com a que eu desejava. Isso também é um custo da bipolaridade: a perda da espontaneidade emocional.
Eu passei a analisar cada emoção como possível sintoma. Se eu ria alto, me perguntava se estava subindo. Se eu chorava, temia estar descendo. Se eu me sentia entediada, suspeitava de depressão. Se me sentia animada, suspeitava de mania. O simples ato de sentir virou um campo de vigilância constante.
Dormir virou prioridade absoluta. Não como luxo, mas como tratamento. O sono passou a ser sagrado, inegociável. Aprendi a dizer não, aprendi a parar antes do limite, aprendi a desconfiar do brilho excessivo.
Mas também aprendi algo que não estava nos manuais médicos: a estabilidade pode ser silenciosa e ainda assim legítima. Ela não vem com fogos de artifício, não vem com euforia. Ela vem como dias comuns, como manhãs previsíveis, como tardes sem grandes acontecimentos. E isso, para alguém que conheceu a mania, parece pouco no começo.
Aos poucos, fui reconstruindo minha identidade para além do transtorno. Não como negação, mas como integração. Eu não era apenas bipolar. Eu era uma mulher com um transtorno bipolar. Essa diferença parece pequena, mas muda tudo. Passei a escolher e a me afastar de dinâmicas que alimentavam meus extremos.
Meu corpo ainda era medicado, mas comecei a fazer as pazes com ele. Não completamente, não romantizando, mas com um respeito novo. Ele tinha me carregado por episódios que poderiam ter me matado. Ele aguentou o fogo, a queda, o caos químico. Ele merecia cuidado, não desprezo.
Aos poucos, muito aos poucos, eu comecei a sentir algo que não sentia há muito tempo: confiança cautelosa. Não aquela confiança grandiosa da mania, mas uma confiança miúda, cotidiana. A confiança de que eu podia atravessar um dia sem me destruir. A confiança de que um dia difícil não significava um colapso iminente. A confiança de que pedir ajuda não me diminuía.
Ainda havia medo. Sempre haverá. A bipolaridade não desaparece. Ela observa, espera, testa limites. Mas eu já não estava completamente à mercê dela. Eu tinha ferramentas. Eu tinha consciência. Eu tinha história suficiente para reconhecer padrões.
E isso me levou, finalmente, ao ponto mais difícil de todos: aceitar que minha vida não seria uma narrativa épica constante, mas algo mais próximo de uma permanência silenciosa. Foi ali que comecei a entender que sobreviver, para mim, não seria um evento extraordinário, seria um trabalho diário. E eu ainda precisava decidir se estava disposta a fazê-lo.
6- O que permanece quando o fogo não dita mais o ritmo
Ninguém acorda um dia e escolhe, com clareza épica, continuar vivendo com um transtorno crônico. O que existe é uma sequência de pequenos gestos repetidos, quase banais, que aos poucos constroem uma permanência. Tomar o remédio mesmo quando o corpo rejeita. Dormir mesmo quando a mente quer correr. Cancelar planos mesmo quando a culpa aperta. Pedir ajuda antes do desespero virar urgência.
Eu não escolhi a bipolaridade, mas precisei escolher o que fazer com ela.
Com o tempo, aprendi que recaídas não são falhas morais e nem fraqueza. São parte da arquitetura do transtorno. Houve outros episódios, menores, contidos antes de explodirem, sinais reconhecidos cedo. Ajustes, conversas difíceis com médico, comigo mesma, com meu esposo. Não romantizei mais o retorno do fogo. Quando ele ameaçava surgir, eu recuava. Não por medo, mas por memória. A memória salva.
Lembrar da queda, do impacto seco, do vazio absoluto, do estado misto em que o corpo queria agir e a mente queria desaparecer. Lembrar do medo real de não sobreviver a mim mesma. Essa lembrança não me paralisava, me orientava. Era um mapa interno desenhado à custa de dor, mas ainda assim um mapa.
Aos poucos, fui reconstruindo projetos menores. Não aqueles que atravessavam décadas em uma noite de mania, mas projetos possíveis. Coisas que cabiam em dias comuns. Escrever um pouco, estudar dentro dos meus limites, tentar criar rotinas simples.
Eu precisei fazer o luto da mulher que eu achava que seria, aquela que funcionava em picos, que produzia em excessos, que se sentia invencível.
Esse luto foi silencioso e profundo. Porque aquela versão também era sedutora. Ela parecia intensa, admirável, quase mítica, mas ela não sobrevivia. Ela queimava rápido demais. Eu precisei aceitar que intensidade não é sinônimo de verdade, e que estabilidade não é sinônimo de mediocridade.
O corpo segue medicado, ainda há efeitos colaterais, ainda há dias de estranhamento. Ainda há ajustes, consultas. Eu não romantizo isso. É cansativo! Mas também é o que me mantém viva o suficiente para construir algo que não desmorona a cada ciclo.
O transtorno bipolar não desapareceu. Ele nunca desaparece. Ele observa, espera, testa. Mas eu também observo agora. Eu também reconheço sinais. Eu também ajo antes do colapso. Não porque sou mais forte, mas porque aprendi, às vezes da forma mais dolorosa possível, o que acontece quando ignoro meus próprios limites.
Se há algo épico nesta história, não é o brilho da mania, nem o drama da queda. É a permanência discreta. É o compromisso diário de não se abandonar. É a coragem silenciosa de existir sem excessos, em um mundo que confunde intensidade com valor.
Eu sigo, não em linha reta, sem tropeços... Mas sigo! E isso pra mim, basta.
Não porque a história terminou, mas porque, pela primeira vez, ela não depende mais do fogo para continuar sendo escrita.
7 – O fogo domesticado
Hoje eu sei que o fogo não era meu inimigo. Ele era desmedido, sim. Imprevisível. Violento. Mas também era parte da matéria que me compõe. O erro nunca foi ter fogo. O erro foi acreditar que eu precisava arder para existir, que intensidade era a única prova de vida possível.
Demorei para entender que não sou apenas os extremos. Não sou apenas a mulher que incendeia madrugadas nem a que afunda em silêncios espessos. Sou também a que acorda e prepara café. A que toma o remédio com um gole d’água e segue. A que escreve sem urgência. A que interrompe o próprio impulso antes que ele a ultrapasse. O fogo ainda existe.
Às vezes ele começa nas bordas da visão, na aceleração das ideias, na sensação elétrica de que tudo pode ser feito agora. Mas hoje eu reconheço o calor antes que vire incêndio. Eu reduzo o ritmo. Eu fecho abas abertas demais. Eu aviso quem precisa saber. Eu aceito ajuda. Eu durmo. Eu me preservo. Eu não preciso mais provar que estou viva através da intensidade.
Há uma dignidade rigorosa na estabilidade que antes me parecia pequena. Há força nos dias comuns. Há grandeza em cumprir rotinas quando ninguém está olhando. Sobreviver deixou de ser espetáculo; tornou-se disciplina.
Talvez este texto seja um registro de permanência. Houve incêndio. Houve ruína. Houve reconstrução. E o que ficou não foi o brilho excessivo nem o colapso dramático. Foi algo mais difícil de sustentar: continuidade.
Se antes eu precisava me expandir até romper os próprios limites, hoje eu escolho caber em mim. Não por resignação, mas por consciência. Eu conheço o preço dos extremos. Conheço o que quase perdi. E é por isso que permanecer deixou de ser pouco. Permanecer é a forma mais concreta de vitória que eu conheço.
8 - A medida do que permanece
Não houve anúncio quando ela chegou. Nenhum marco, nenhuma sensação inaugural capaz de dizer com precisão “é agora”. A estabilidade não se apresenta como acontecimento. Ela se instala aos poucos, quase sem ser percebida, como a luz que muda de tom ao longo do dia sem que alguém acompanhe cada minuto da transição. No começo, eu desconfiei.
A ausência de extremos parecia ausência de tudo. Eu procurava sinais mais intensos, algum tipo de confirmação interna de que estava viva da maneira que aprendi a reconhecer. Mas não havia excesso, nem urgência, nem abismo. Havia apenas continuidade. E isso, por um tempo, pareceu insuficiente.
Os dias passaram a ter uma textura diferente. Não eram leves nem pesados. Eram possíveis. Eu acordava e existia dentro de um ritmo que não exigia esforço desproporcional para se manter. As tarefas não eram grandiosas, mas também não eram intransponíveis. Havia uma proporção nova entre o que eu sentia e o que eu conseguia fazer com isso.
O pensamento deixou de ser um território hostil.
Ele não era mais rápido do que eu podia acompanhar, nem lento a ponto de me perder dentro dele. As ideias vinham e iam sem se acumular em excesso, sem se fragmentar em ruído. Pela primeira vez em muito tempo, pensar não era um risco, também não era extraordinário. E foi aí que comecei a entender.
A estabilidade não oferece espetáculo. Ela não amplia nem reduz a vida de forma abrupta. Ela sustenta. Permite que as coisas aconteçam em uma escala habitável. Permite que o tempo exista sem distorções. Permite que o corpo não precise ser vencido para que o dia comece.
Existe uma sobriedade nisso que, no início, pode ser confundida com falta. Mas não é falta. É medida. Com o tempo, percebi que havia espaço. Espaço entre um pensamento e outro. Espaço entre sentir e reagir. Espaço suficiente para escolher, ainda que minimamente, o que fazer com o que me atravessa. Esse intervalo, que antes não existia, tornou-se a base de tudo.
Não é liberdade no sentido amplo. Mas é possibilidade. E possibilidade é o que sustenta qualquer forma de continuidade.
Passei a reconhecer pequenas variações sem transformá-las em ameaça imediata. Nem todo cansaço significa queda. Nem toda animação anuncia descontrole. Há nuances. Há gradações. Há dias comuns que não precisam ser interpretados como sinais de algo maior.
Essa compreensão não veio de uma vez. Foi construída na repetição silenciosa de dias que não exigiam reparo. A estabilidade também não elimina o cuidado.
Ela pede atenção constante, mas não angustiada. Um tipo de presença que não vigia de forma exaustiva, mas acompanha. Como quem observa o próprio caminho enquanto anda, sem a necessidade de prever cada passo com antecedência.
Há limites mais claros agora. Limites de tempo, de energia, de exposição. Eles não surgem como imposição externa, mas como reconhecimento interno. Eu sei quando parar. E, mais importante, aceito parar sem interpretar isso como fracasso. Isso muda tudo.
Porque, durante muito tempo, parar significava perder. Hoje, parar também pode ser manter. A vida, nesse estado, não se expande de forma desmedida, nem se retrai até desaparecer. Ela segue. E seguir, descobri, exige mais constância do que intensidade.
Há uma espécie de confiança que nasce. Não uma confiança absoluta, porque ela não seria honesta. Mas uma confiança suficiente para atravessar o dia sem antecipar um colapso. Uma confiança que não ignora a vulnerabilidade, mas também não se organiza a partir dela. Eu continuo atenta. Mas já não estou em guerra.
E talvez essa seja a mudança mais significativa. A estabilidade não me transforma em alguém imune às variações da mente. Ela me permite coexistir com elas sem ser completamente definida por cada oscilação. Há uma distância possível entre o que acontece e quem eu sou. Essa distância não é afastamento. É sustentação.
No fim, entendi que estabilidade não é ausência de movimento. É a capacidade de permanecer inteira enquanto tudo continua se movendo. E isso, para mim, já é suficiente.
Há um silêncio anterior a qualquer certeza. Não um silêncio vazio, mas um espaço aberto onde nada foi decidido por nós. O mundo não nos espera com respostas, nem nos acolhe com um sentido já traçado. Nós simplesmente surgimos, lançados nessa abertura, sem essência pronta, sem destino assegurado. E, ainda assim, somos convocados a viver.
Não há uma consciência superior que nos tenha pensado antes de existirmos. A ausência de Deus não é apenas uma ideia, é uma condição. Significa que não fomos projetados, que não há um molde a ser preenchido, nenhuma natureza fixa a ser descoberta. Aquilo que somos não está escondido em algum lugar, aguardando revelação. Está por ser feito. E é nesse fazer que a existência se desenrola.
Mas viver não é um gesto neutro. A cada instante, mesmo no mais cotidiano dos atos, escolhemos algo. Escolhemos falar ou calar, permanecer ou partir, aceitar ou recusar. E não há como escapar disso. Até a recusa em escolher já é, por si só, uma escolha. Há uma liberdade silenciosa que nos atravessa? Uma liberdade que não pede permissão e não oferece descanso?
Se há, essa liberdade pesa. Não como um fardo imposto de fora, mas como algo que brota de dentro. Porque ao escolher, não traçamos apenas um caminho pessoal. Há algo mais amplo que se inscreve em cada gesto, como se disséssemos, ainda que sem palavras, que aquele modo de agir poderia valer para qualquer um. Nossas escolhas ultrapassam o instante e tocam uma ideia de humanidade que estamos, inevitavelmente, ajudando a construir.
Talvez seja por isso que a angústia e a dor apareça. Não como fraqueza, mas como resultado concreto de nossas ações e escolhas. Ela nos lembra que não há garantias, que não existe um fundamento seguro onde possamos repousar. Não há valores prontos, nem princípios eternos que nos isentem de decidir. Tudo aquilo que orienta a vida precisa ser criado, sustentado, assumido, por nós e mais ninguém.
E, no entanto, não estamos sozinhos nesse movimento. O outro está sempre presente, mesmo quando não o vemos. Seu olhar nos alcança, nos transforma, nos devolve uma imagem que não controlamos. Diante dele, deixamos de ser apenas aquilo que escolhemos ser e passamos a existir também como aquilo que somos para alguém. Há uma tensão delicada nesse encontro, um jogo entre afirmar-se e ser capturado pelo olhar alheio.
Ainda assim, é nesse entrelaçamento que o humano se faz. Não como essência, mas como relação, como construção contínua, como algo que nunca se completa. Não há reconciliação final, não há um momento em que tudo se estabiliza. Há apenas esse movimento incessante de tornar-se, de refazer-se, de existir para além do que já se é.
Viver talvez seja isso. Habitar essa liberdade sem negá-la, sustentar a angústia sem fugir dela, encontrar no vazio não um abismo que paralisa, mas um espaço onde algo pode nascer. Não um sentido dado, mas um sentido criado, frágil e provisório, como tudo aquilo que é verdadeiramente humano. Demasiadamente humano.
No fim, não somos aquilo que nos disseram que seríamos, nem aquilo que esperamos nos tornar um dia. Somos esse movimento inquieto entre o que já fizemos de nós e aquilo que ainda insistimos em ser. E, nesse intervalo, existe algo raro, quase imperceptível, mas profundamente nosso: a possibilidade de existir com consciência de que somos, ao mesmo tempo, ausência de fundamento e potência de criação.