Existir é carregar o peso de estar lançado no mundo sem manual, sem promessa metafísica que organize o caos. O ser desperta para si como quem abre os olhos em um quarto desconhecido: já está ali. Não há natureza humana pronta aguardando ser descoberta no fundo da alma. Há apenas a vertigem da liberdade, nua, silenciosa e inevitável.
Cada gesto constrói aquilo que somos. Não existe refúgio definitivo em Deus, no destino, na moral eterna ou nas estruturas do mundo. Tudo isso pode servir como abrigo provisório para o medo que sentimos diante da responsabilidade que é existir. Porque a consciência é condenada a inventar-se continuamente. E essa condenação não possui descanso. Até a fuga é uma escolha. Até o silêncio é uma tomada de posição diante da vida. Tudo é escolha, até optar em não fazer nada.
Alguns de nós desejamos frequentemente transformar-se em objeto, tornar-se fixo, acabado, imóvel, como uma pedra que simplesmente é o que é. Mas a consciência nunca coincide consigo mesma. Ela escapa, transcende, projeta-se para além do que já foi. Somos uma ausência dentro de nós mesmos, um vazio que busca preencher-se através dos atos. Por isso a identidade nunca é definitiva. O sujeito não é; ele está sempre tornando-se. Somos inacabados.
A angústia nasce exatamente dessa percepção... nada garante que nossas escolhas e vivências sejam corretas. Não existe uma voz universal sussurrando o caminho certo. Experenciar é criar um tipo de valor no instante vivido, e isso também contribui para construção de uma imagem do outro... Cada ação afirma silenciosamente: “é assim que um sujeito deve ser”. Por isso o peso insuportável da liberdade. Nós não somos responsáveis apenas pelo que fazemos, mas também pelo sentido que damos ao mundo.
Muitos passam a vida tentando escapar disso. Escondem-se atrás de papéis sociais, títulos, religiões, discursos prontos, rotinas mecânicas. Fingem que são apenas aquilo que desempenham: o professor, a mãe, o estudante, o trabalhador, o religioso fiel. Como se a existência pudesse ser reduzida a uma função. Mas nenhuma máscara elimina a consciência de que somos maiores e mais instáveis do que qualquer definição. O ser sempre excede aquilo que aparenta ser.
A existência humana é marcada por uma contradição cruel. Nós desejamos permanência em um universo instável. Procuramos fundamento em um mundo indiferente. Queremos sentido antes mesmo de criá-lo. E sofremos porque percebemos, em certos momentos de lucidez, que o universo não responde. O silêncio das coisas revela que o sentido não está escondido em algum lugar esperando ser encontrado.
O outro, quero dizer, o externo a mim, também surge como problema inevitável. Ser visto por alguém é perceber-se aprisionado em um olhar que nos transforma em objeto. O olhar do outro rouba nossa espontaneidade e nos devolve uma imagem fixa de nós mesmos. Por isso toda relação humana carrega tensão, disputa, desejo de reconhecimento e medo de aprisionamento. Queremos ser livres, mas em nosso desejo por liberdade, aprisionamos a liberdade alheia, dessa contradição nasce os conflitos mais profundos.
Ainda assim, não há saída fora da existência concreta. Nós somos tudo aquilo que vivemos, que fazemos, mas também o que fazem da gente. Mesmo cercados por circunstâncias, continuamos responsáveis pela maneira como respondemos ao mundo.
No fim, existir é caminhar sem garantias, sustentado apenas pela própria consciência, diante de um mundo sem respostas prontas. E talvez a grandeza humana esteja exatamente nisso: na coragem de continuar criando significado mesmo sabendo que nenhuma verdade eterna virá salvar-nos da tarefa de existir.
A bipolaridade não cria o vazio em si. Talvez apenas retire alguns dos véus que normalmente tornam a existência suportável. Porque, no fundo, essa sensação de instabilidade, de incompletude e de estranhamento diante da própria vida não pertence exclusivamente ao adoecimento psíquico. Ela pertence à condição humana.
A diferença é que muitos conseguem anestesiar essa percepção através das rotinas, das distrações, dos papéis sociais, das promessas de futuro, das certezas religiosas ou da velocidade cotidiana. Permanecem ocupados demais para perceber o abismo silencioso que sustenta a existência. Vivem como se houvesse uma essência pronta, um destino organizado, uma estabilidade definitiva aguardando no fim do caminho. Mas não há...
Somos atravessados por uma falta permanente, somos incompletos, instáveis, provisórios. Tentamos desesperadamente fixar uma identidade, encontrar um sentido absoluto, construir algo que nos salve da consciência de nossa própria existência... E talvez uma das maiores angústias seja justamente perceber que nada disso consegue preencher inteiramente o vazio de existir.
O transtorno, então, não transforma alguém em humano (ou em não humano). Todos nós somos atravessados pela mesma fragilidade ontológica. O que muda é que alguns despertam mais cedo (ou de maneira mais violenta) para aquilo que os outros passam a vida tentando esquecer, que é a ausência de garantias, a instabilidade do eu, a insuficiência das máscaras sociais e a silenciosa insignificância que habita a experiência humana.
Penso que talvez existir não seja encontrar um sentido pronto, mas suportar conscientemente a tarefa interminável de criá-lo, mesmo quando tudo parece vazio demais para continuar.
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