Mandaram que o vento aprendesse prudência,
Que as janelas fechassem antes do amanhecer.
Até os pássaros diminuíram o voo,
Como se o céu também pudesse denunciar.
Nas praças, os bancos guardavam conversas
Que ninguém mais ousava terminar.
As palavras passaram a andar descalças,
Com medo do barulho dos próprios passos.
Havia olhos voltados para o chão,
Não por humildade, mas por sobrevivência.
Quem carregava a verdade nos bolsos
Aprendeu a costurá-los por dentro.
Mesmo assim, havia sementes.
Sempre há.
Escondidas sob a terra endurecida,
Esperavam o tempo vencer o concreto.
Porque nenhuma noite é tão extensa
Que consiga prender o nascimento do dia.
Nenhuma muralha resiste para sempre
Ao trabalho paciente das raízes.
E quando o primeiro canto voltou a ecoar,
Não veio como grito de vingança.
Veio como quem devolve ao mundo
O direito antigo de respirar.
Desde então, toda palavra livre
Carrega a memória das que foram enterradas.
E todo silêncio imposto, por mais pesado que pareça,
Já nasce derrotado pelo desejo humano de dizer.
Luany de Macedo Nascimento 08/07/2026
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P.S.: Não vivi os anos da ditadura militar (1964-1985). Nasci depois que esse período chegou ao fim. Ainda assim, acredito que a memória não pertence apenas a quem testemunhou a história, mas também a quem escolhe preservá-la.
Este poema é uma homenagem àqueles que resistiram quando a censura tentou calar vozes, quando a liberdade foi restringida e quando defender ideias podia significar perder direitos, a liberdade ou a própria vida.
Lembrar esse período é reconhecer que a democracia e a liberdade nunca são garantias permanentes. Elas precisam ser preservadas, defendidas e fortalecidas todos os dias. A memória é uma forma de responsabilidade com o presente e de compromisso com as gerações que virão.
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