Aprendi a escrever com as mãos vazias,
Como quem varre o quintal depois da chuva.
Nunca procurei palavras extraordinárias;
Bastava uma que ainda respirasse.

Há dias em que o papel me reconhece
Antes mesmo que eu me encontre.
Então me sento diante do papel em branco
Como quem retorna à casa depois de muito tempo.

Escavo o silêncio sem pá nem enxada.
É a memória quem revolve a terra,
E eu apenas recolho os pedaços
Que insistem em sobreviver ao esquecimento.

Algumas frases chegam mancando,
Outras trazem perfume de café recém-passado.
Há também as que entram sem pedir licença,
Como o vento que conhece todas as frestas.

Escrever nunca curou minhas ausências.
Mas lhes deu um nome,
E às vezes basta nomear uma dor
Para que ela deixe de ser estrangeira.

Quando a última palavra repousa na página,
Não me sinto maior nem mais leve.
Apenas devolvo ao mundo
Aquilo que ele sussurrou em mim.


Luany de Macedo Nascimento, 09/07/2026

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