Nada no universo é verdadeiramente silencioso. O silêncio é, muitas vezes, apenas aquilo que ainda não aprendemos a traduzir.

Há uma linguagem em tudo. Não necessariamente uma linguagem feita de palavras, sons ou sinais reconhecíveis, mas uma linguagem própria de cada existência, uma gramática íntima pela qual cada ser anuncia, à sua maneira, que está no mundo. As árvores falam pelo modo como se inclinam diante do vento. Os rios, pela insistência de seu movimento. Os animais, pela delicadeza ou pela violência de seus gestos. O céu, pelas suas mudanças. O corpo, pelas marcas que carrega. E o ser humano, essa criatura tão convencida de possuir a palavra, fala também por aquilo que não consegue dizer.

Viver é habitar um mundo de idiomas estrangeiros.

Encontramo-nos todos os dias com pessoas cujas palavras acreditamos compreender. Escutamos suas frases, reconhecemos seus vocábulos, respondemos às suas perguntas. E, ainda assim, quantas vezes permanecemos completamente distantes daquilo que o outro realmente quis dizer? Porque uma língua não é apenas aquilo que se pronuncia.

Existe uma língua anterior às palavras: aquela formada pela história de cada um.

Cada pessoa chega ao encontro com o outro carregando um dicionário que ninguém vê. Nele estão as perdas, os afetos, os abandonos, os medos, as lembranças, os lugares onde doeu, os lugares onde foi acolhida. Há palavras que, para alguém, significam abrigo e, para outro, significam ameaça. Há silêncios que são paz e silêncios que são pedidos de socorro. Há distâncias que significam desprezo e outras que significam apenas a necessidade de respirar.

A mesma palavra pode nascer em duas bocas e significar dois mundos.

É por isso que compreender alguém é uma tarefa muito mais difícil do que ouvi-lo. Ouvir é receber o som. Compreender é tentar alcançar o lugar de onde o som veio. É nesse movimento que acontece a verdadeira tradução.

Traduzir o outro não significa reduzi-lo àquilo que conseguimos entender. Ao contrário. Significa aceitar que sempre haverá algo que escapa. Toda tradução é, de certo modo, uma aproximação. Tentamos transportar um sentido de um universo para outro, sabendo que alguma coisa inevitavelmente se perde no caminho.

E talvez seja justamente nessa perda que exista uma das maiores verdades sobre o encontro. Nunca acessamos o outro por inteiro. Nunca atravessamos completamente a distância entre duas consciências. Existe sempre uma margem de mistério, uma região à qual não chegamos, por mais íntima que seja a relação, por mais atenta que seja a escuta.

Amar é uma forma ainda mais radical dessa tradução.

Amar alguém é aprender uma língua que não foi escrita para nós. É perceber que existem gestos que dizem mais do que frases inteiras. É aprender a reconhecer o silêncio de quem precisa de companhia e o silêncio de quem precisa de espaço. É descobrir que determinada irritação pode esconder medo, que determinada frieza pode ser defesa, que determinada insistência pode ser uma maneira desajeitada de pedir para não ser abandonado.

Amar é aprender significados que não aparecem nos dicionários.

Mas há algo ainda mais difícil: compreender sem transformar o outro em nós mesmos.

Existe uma violência sutil em acreditar que só compreendemos aquilo que se parece conosco. Quando não conseguimos decifrar alguém, somos tentados a julgá-lo a partir da nossa própria gramática, do nosso próprio mundo. Interpretamos o outro utilizando as regras do nosso idioma interior e, então, estranhamos aquilo que não cabe nele.

Uma das maiores dificuldades humanas é que queremos que o outro fale uma língua que já conhecemos. Queremos que ele ame como sabemos amar, sofra como sabemos sofrer, peça perdão como pediríamos, demonstre afeto como demonstraríamos. E, quando ele não o faz, muitas vezes concluímos que não ama, não sente, não se importa. Mas ele pode estar apenas falando outra língua. E não existe maior exercício de humanidade do que permanecer diante dessa diferença sem imediatamente condená-la.

Há pessoas que precisam de palavras para dizer "eu te amo". Outras precisam permanecer. Há quem peça cuidado aproximando-se, há quem peça cuidado afastando-se. Há quem fale muito quando está com medo, há quem desapareça dentro do silêncio. Há quem ofereça o que tem nas mãos, enquanto outros oferecem apenas a presença.

Somos estrangeiros uns para os outros.

E, ao mesmo tempo, passamos a vida inteira tentando construir pontes entre esses estrangeiros. Talvez seja isso que chamamos de encontro. Não o momento em que finalmente deciframos alguém, mas aquele instante raro em que aceitamos não compreender tudo e, ainda assim, decidimos continuar escutando. Compreender não é possuir a tradução definitiva do outro. É ter humildade suficiente para reconhecer que o outro jamais caberá completamente na nossa interpretação.

Cada existência guarda uma língua que ninguém mais possui exatamente da mesma maneira. Uma combinação irrepetível de memórias, experiências, feridas, desejos, afetos e silêncios. Somos, cada um de nós, um idioma que está sendo inventado enquanto é falado. E isso não diz respeito apenas aos seres humanos.

O universo inteiro parece composto por formas de expressão que coexistem sem necessariamente se compreenderem. A matéria possui sua linguagem. O movimento possui a sua. A luz possui a sua. As estrelas possuem a sua. Os animais possuem a sua. O corpo possui a sua. A morte possui a sua. O amor possui muitas. Existir é, de alguma maneira, dizer.

E viver é estar constantemente diante de algo que diz sem necessariamente utilizar a linguagem que conhecemos.

É por isso que a escuta exige mais do que atenção. Exige deslocamento. Para compreender verdadeiramente, é preciso abandonar por alguns instantes a segurança da própria língua e aceitar que o mundo pode significar coisas que ainda não sabemos nomear.

Nesse  movimento nos tornamos mais pacientes e dispostos, não por ter capacidade de  traduzir tudo, mas na disposição de reconhecer aquilo que ainda não conseguimos traduzir. Porque o contrário do amor não é necessariamente o ódio. Pode ser a recusa em traduzir.

É olhar para o outro e decidir, antes mesmo de escutá-lo, que já sabemos o que ele significa. É substituir a curiosidade pelo julgamento, a escuta pela interpretação apressada, o encontro pela certeza.

Amar, então, é o movimento contrário. É aproximar-se do outro como quem se aproxima de uma língua desconhecida, sem dicionário, sem certezas, sem a arrogância de acreditar que já sabe.

Perguntar. Escutar. Observar. Errar. Tentar novamente. Não para alcançar uma tradução perfeita, mas para construir uma compreensão possível. Porque talvez nunca sejamos capazes de traduzir completamente o universo, os outros ou sequer a nós mesmos. Mas podemos aprender a escutar.

E há uma diferença imensa entre viver em um mundo que julgamos compreender e viver em um mundo que aceitamos continuar aprendendo a traduzir. No fim, talvez seja isso que nos torna humanos, não a capacidade de possuir todas as palavras, mas a disposição de permanecer diante do mistério até que alguma coisa, mesmo sem nome, comece a fazer sentido.

Cada ser é uma linguagem. Cada encontro, uma tradução. E toda tradução é uma tentativa de atravessar a distância entre dois mundos sem destruir aquilo que os torna diferentes.


Luany de Macedo Nascimento, 24/09/2026

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