Há algo contraditório na forma como nós, brasileiros, vivemos a política. Muitas vezes, transformamos a eleição em uma espécie de Carnaval. Escolhemos cores, vestimos camisas, repetimos palavras de ordem e tratamos candidatos como ídolos e adversários como inimigos. A política vira torcida, e o voto, que deveria ser uma das expressões mais importantes da democracia, acaba reduzido a um espetáculo.

Mas o voto não é Carnaval.

Depois que as bandeiras são recolhidas e os jingles deixam de tocar, a vida continua. Continuam o preço dos alimentos, as dificuldades na saúde e na educação, a busca por moradia, trabalho, segurança e dignidade.

Por isso, uma eleição não é apenas a escolha de pessoas para ocupar cargos. É também uma escolha entre diferentes projetos de sociedade. Em 2026, milhões de brasileiras e brasileiros escolherão presidente, governadores, senadores e deputados. Essas escolhas terão consequências sobre as leis, as políticas públicas, o orçamento e, principalmente, sobre a vida cotidiana de todos nós.

Votar exige mais do que escolher um lado. Exige compreender que, depois da festa, ficam as consequências.

Talvez uma das maiores tragédias do nosso tempo seja justamente termos transformado a política em identidade e esquecido que ela é, antes de tudo, responsabilidade coletiva.

Eu não consigo mais olhar para a extrema direita brasileira apenas como mais uma corrente política entre tantas outras. Há algo profundamente perturbador no que ela representa. Não porque todo eleitor de direita seja uma pessoa má, seria intelectualmente preguiçoso afirmar isso. Mas porque determinados setores da extrema direita transformaram o ressentimento, o medo, o preconceito e a negação de direitos em instrumentos de mobilização política.

E há uma diferença enorme entre defender uma política econômica conservadora e construir uma política baseada na fabricação permanente de inimigos. A extrema direita precisa de inimigos.

Precisa da narrativa do professor "doutrinador", da universidade "inútil", do artista "vagabundo", do pobre "dependente", da mulher que reivindica autonomia, da população LGBTQIA+, dos movimentos sociais, dos ambientalistas, dos intelectuais, dos jornalistas, dos imigrantes, dos militantes de esquerda. Precisa de alguém para apontar e dizer: "o problema está ali."

Porque é muito mais fácil apontar um inimigo do que explicar a complexidade de uma sociedade desigual.

É muito mais fácil dizer que o pobre recebe demais do que discutir concentração de renda. É muito mais fácil culpar o trabalhador desempregado do que discutir a precarização do trabalho. É muito mais fácil atacar a universidade pública do que discutir o papel da ciência. É muito mais fácil transformar professor em inimigo do que admitir que educação produz pensamento crítico. É muito mais fácil dizer que direitos humanos "protegem bandidos" do que discutir as raízes sociais da violência. E é muito mais fácil gritar "Deus, Pátria, Família" do que explicar por que tantas famílias brasileiras continuam vivendo sem o básico.

Esse é um dos grandes truques da extrema direita, transformar problemas estruturais em conflitos morais simplificados. E quando a política vira uma disputa entre "cidadãos de bem" e "inimigos da sociedade", o pensamento crítico começa a morrer. A política do ódio é também uma política de distração. Pois enquanto pobres brigam com pobres, trabalhadores brigam com trabalhadores, professores brigam com professores e famílias brigam à mesa do jantar por causa de candidatos, as estruturas econômicas continuam funcionando.

O trabalhador olha para o outro trabalhador e pensa que seu problema é o benefício social que o vizinho recebe, não olha para a concentração de riqueza. Olha para a mulher que recebe uma política pública, não olha para quem acumula patrimônio em uma escala que jamais alcançará. Olha para quem está na universidade por meio de uma política de inclusão, não olha para as desigualdades históricas que tornaram essa política necessária. É uma engenharia política extraordinariamente eficiente, fazer os que têm pouco disputarem entre si enquanto os que têm muito permanecem protegidos.

E aqui o neoliberalismo encontra a extrema direita de maneira particularmente perigosa. Porque o neoliberalismo ensina a pensar que somos indivíduos isolados, responsáveis exclusivamente pelo próprio destino. A extrema direita acrescenta a esse individualismo uma narrativa de ressentimento, se você não conseguiu, alguém está tomando aquilo que deveria ser seu. E pronto. O vizinho vira inimigo.

O pobre vira ameaça. O servidor público vira privilégio. A universidade vira desperdício. O movimento social vira desordem. O direito vira privilégio. E o Estado social passa a ser apresentado como obstáculo à liberdade. Enquanto isso, a desigualdade permanece.

O neoliberalismo vende a ideia de que ninguém precisa de ninguém Talvez essa seja uma das maiores crueldades do nosso tempo, convencer uma sociedade inteira de que cada indivíduo está sozinho. Você não precisa de direitos; precisa de esforço. Não precisa de sindicato; precisa negociar. Não precisa de política pública; precisa empreender. Não precisa de Estado; precisa se virar. Não precisa de solidariedade; precisa competir. Não precisa perguntar por que existem pobres; precisa perguntar por que você ainda não ficou rico. A pobreza deixa de ser uma questão social e vira defeito individual. O desemprego deixa de ser problema econômico e vira falta de competência. A precarização deixa de ser exploração e vira "flexibilidade". A desigualdade deixa de ser injustiça e vira "meritocracia".

E assim conseguimos produzir uma sociedade na qual o indivíduo se culpa por problemas que nunca foram exclusivamente individuais. Essa lógica é brutal porque transforma sofrimento em fracasso pessoal. E uma sociedade que aprende a culpar o indivíduo por tudo deixa de cobrar responsabilidades daqueles que possuem poder.

E há algo que a esquerda precisa admitir. Mas aqui chegamos a uma ferida que a esquerda precisa ter coragem de tocar. A extrema direita entendeu uma coisa que parte da esquerda parece ter esquecido: política também é linguagem.

Não adianta possuir uma análise sofisticada da sociedade se você não consegue conversar com quem está sofrendo dentro dela. Não adianta saber explicar a financeirização do capital se você não consegue explicar por que o salário não dá para chegar ao fim do mês. Não adianta falar em "reprodução das estruturas de dominação" para alguém que está preocupado em pagar o aluguel. Não adianta discutir "epistemologias contra-hegemônicas" quando a pessoa só quer saber se haverá médico no posto de saúde. Não adianta dizer "neoliberalismo" como se a palavra, sozinha, explicasse alguma coisa.

É preciso dizer: estão tentando convencer você de que seu sofrimento é culpa sua. Não é.

É preciso falar simples sem pensar simples. É preciso abandonar a arrogância acadêmica sem abandonar a profundidade. É preciso sair das bolhas universitárias. Porque enquanto uma parte da esquerda escreve textos para pessoas que já concordam com ela, a extrema direita conversa com quem está no supermercado, no salão de beleza, no ônibus, na oficina, na igreja, no bar, na feira e no grupo da família.

A esquerda muitas vezes quer dar uma aula. A direita radical muitas vezes quer contar uma história. E histórias chegam mais longe do que conceitos. Não basta estar certo, é preciso ser compreendido Talvez essa seja uma das derrotas mais dolorosas da esquerda contemporânea. Não necessariamente a falta de argumentos. Mas a incapacidade de transformar argumentos em linguagem popular. 

O povo está trabalhando. Está criando filhos. Está pagando contas. Está enfrentando filas. Está tentando sobreviver. E quem não consegue falar com esse povo deixa um espaço aberto. E alguém ocupará esse espaço. A extrema direita ocupou. O algoritmo ocupou. O discurso de ódio ocupou. As fake news ocuparam. Os vendedores de soluções fáceis ocuparam. E depois a esquerda pergunta: "Como essas pessoas puderam acreditar nisso?" Talvez a pergunta devesse ser outra: por que nós não estávamos conversando com elas?

O eleitor não é torcida. É cidadão. É justamente por isso que me incomoda tanto quando política é tratada como Carnaval. Não porque o Carnaval seja superficial,  muito pelo contrário. O Carnaval também é cultura, memória, resistência e expressão popular. Mas porque a eleição não termina na festa.

O candidato não entra no governo carregando apenas a camisa que você vestiu. Ele leva consigo o poder de decidir sobre vidas que não conhece. O voto que você dá pensando apenas no seu bolso pode atingir o bolso de milhões. O voto que você dá pensando apenas na sua família pode atingir famílias completamente diferentes da sua. O voto que você dá por raiva pode produzir consequências para quem não teve nenhuma participação naquilo que despertou a sua raiva. Por isso, votar é um ato profundamente coletivo.

Eu não voto mais apenas por mim. Voto pela criança que está numa escola pública. Pelo trabalhador que depende do SUS. Pela mulher que precisa de proteção contra a violência. Pelo idoso que depende da Previdência. Pela pessoa com deficiência que precisa de acessibilidade. Pelo estudante que depende da universidade pública. Pelo trabalhador que precisa de direitos. Pelo rio que não pode ser destruído em nome do lucro. Pelo futuro de quem sequer nasceu.

A democracia começa a morrer quando acreditamos que o voto é apenas uma extensão do nosso interesse individual. Não é. O voto é uma responsabilidade diante do outro Talvez devêssemos entrar na cabine eleitoral com menos euforia e mais consciência. Menos "meu candidato" e mais "qual projeto de sociedade está sendo colocado diante de nós?" Menos "ele ganhou!" e  mais "o que essa vitória significa para quem tem menos poder?"

Menos camiseta. Mais memória. Menos meme. Mais responsabilidade. Menos idolatria. Mais pensamento crítico. Porque nenhum político deveria ser tratado como salvador. Nem de esquerda. Nem de direita. Político não é santo. Partido não é religião. E eleitor não deveria ser torcedor.

A democracia exige cidadãos capazes de cobrar inclusive aqueles com quem concordam. E talvez seja disso que estamos precisando Precisamos recuperar a capacidade de discutir política sem transformar o outro em inimigo. Mas também precisamos recuperar a capacidade de reconhecer quando determinados projetos políticos atacam direitos, aprofundam desigualdades ou corroem instituições democráticas.

Não precisamos fingir que todas as posições políticas são iguais para sermos democráticos. Não são. Existem projetos de sociedade diferentes. Existem interesses econômicos diferentes. Existem concepções diferentes de Estado, de direitos, de democracia e de liberdade. E existem escolhas que terão consequências muito concretas sobre a vida das pessoas.

É por isso que eu não quero uma política anestesiada, educadinha, incapaz de se indignar. Quero uma política que tenha memória. Que saiba reconhecer a violência quando ela aparece. Que não chame de "opinião" aquilo que pretende retirar direitos de outras pessoas. Que não transforme desigualdade em mérito. Que não transforme pobreza em culpa. Que não transforme preconceito em liberdade de expressão. Que não transforme trabalhador em mercadoria. Que não transforme educação em privilégio. Que não transforme o Estado em instrumento exclusivo dos que já possuem poder.

E, sobretudo, quero uma esquerda que tenha coragem de voltar para onde a política realmente acontece: na vida das pessoas. Que fale bonito quando for necessário, mas que saiba falar simples. Que leia Marx, Gramsci, Freire e tantos outros, mas que consiga explicar suas ideias para Dona Maria na fila do posto de saúde.

Que conheça a universidade, mas não fique presa dentro dela. Que tenha teoria, mas também tenha escuta. Que tenha princípios, mas não tenha soberba. Que saiba dizer uma coisa fundamental: você não é pobre porque fracassou sozinho. Você não precisa odiar quem está ao seu lado para melhorar de vida. O trabalhador não é inimigo do trabalhador. O pobre não é inimigo do pobre. Seu vizinho não é seu inimigo. Seu adversário político não precisa ser seu inimigo pessoal. E que consiga transformar essa compreensão em uma linguagem que alcance quem mais precisa ouvi-la.

Porque a política não pode continuar sendo Carnaval. Não quando o resultado da festa é decidido por milhões e a conta é paga por todos. No dia seguinte à eleição, não existem vencedores e derrotados apenas nas redes sociais. Existem pessoas que continuarão vivendo. Crianças continuarão crescendo. Professores continuarão ensinando. Trabalhadores continuarão trabalhando. Doentes continuarão esperando atendimento. Famílias continuarão tentando sobreviver. E o governo continuará tomando decisões.

É por isso que votar é muito mais sério do que escolher uma camisa. Muito mais sério do que escolher um lado numa briga de torcida. Muito mais sério do que publicar uma bandeira. O voto é um pedaço daquilo que fazemos com a vida dos outros. E talvez seja justamente por isso que a pergunta mais importante diante de uma eleição não seja: "Quem vai ganhar?" Mas sim "Que sociedade estamos ajudando a construir quando apertamos aquele botão de confirmar?"

0 comments:

Postar um comentário